NEVERLAND
Certa vez, como que a pular corda ou amarelinha novamente, Sándor Márai sentenciou, provavelmente com lágrimas nos olhos (e num dia nublado), que a infância é a nossa única e verdadeira pátria.
Quem assopra o vento que faz a bandeira colorida da infância tremular?
A eterna brincadeira.
O menino não se lembra do que fez ontem — ele simplesmente acorda, brinca, corre, se suja, come o bife à milanesa da vovó, se cansa, toma banho (a contragosto), reza e (finge que) dorme.
O menino não sabe o que vai fazer amanhã — tudo o que ele não toca e não vê está taticamente camuflado num contínuo esconde-esconde à dobra da esquina.
Miro o rosto de olhos esbugalhados, língua pra fora e bigode de Nescau (ou seria de iogurte?) da infância e lhe pergunto:
— Que horas são?
O relógio cuco, colocando a postos os partícipes pré-mirins do pega-pega, assim responde:
— 1, 2, 3 e… já!
Artigo 1.º da Constituição da República Infantil: “É dever de toda e cada criança brincar a sério”.
Aprendiz de médica, a menina que cura a dor de barriga da boneca acredita — isto é, ela sabe! — que a salsinha surrupiada da gaveta de verduras da geladeira é um santo remédio.
Quando pequenino, o imberbe Liev Tolstói tinha medo de virar a cabeça pra trás muito depressa. “E se o mundo ainda não estiver pronto antes da chegada do meu olhar?”.
Certa vez, Alexander Soljenítsin sentenciou que o verdadeiro pecado original é a perda precoce da inocência. Ficar órfão e/ou cair muito doente ainda criança — em suma, olhar para a cara de caveira da vida muito mais jovem do que Hamlet —, eis a mais trágica expulsão do Éden.
Por que a criança confia, oferecendo mesmo a estranhos a mãozinha aberta em palma?
Porque, para a criança, o mundo é a extensão do quintal de casa, em frente de cuja porta há um tapete gentil em que se lê “Lar, doce lar”.
Freud nos ensina que o início mais tenro do eu é uma ferida: a tesoura que corta o cordão umbilical rompe a união primordial entre a mãe e o bebê — será por isso que o bebê é incitado a chorar, com um tapinha no bumbum, ao chegar a este mundo? “Bem-vindo ao deserto do real!”.
Nunca mais voltaremos ao ninho do útero, mas o berço, o abraço e a busca (inglória) por amor nos remetem à época primordial em que éramos unos com a vida.
A criança tem medo do futuro?
Embalada pelo gira-gira do presente, a criança tem medo do escuro repleto de fantasmas.
Manoel de Barros, o poeta que coagulou em âmbar o dente de leite de sua meninice, sussurrou que “a criança erra na gramática, mas acerta na poesia”.
— Vó, pai, mãe, é verdade que o coração é a casa do amor?
— Sim, Ricardinho, é verdade.
— Então, se o coração é a casa do amor, e se o coração do beija-flor bate muito, muito e muito, por que Deus faz o beija-flor morrer tão cedo?
Calejados pela vida, a vó, o pai e a mãe se entreolham, tristes, e engolem em seco (e em silêncio) o pomo de Adão e Caim.
Sábio, Peter Pan não quer ser exilado da ilha da infância.
Cínico, Chronos transforma a ilha de Peter Pan em Neverland, a terra do nunca.
Extenuado pela falta de amor e amizade, o adulto, padrasto da criança de outrora, olha para si mesmo como quem tenta divisar o fundo de um enorme poço. Sitiado pelo ceticismo, o adulto ainda quer reunir forças para acreditar que, lá do fundo do poço, ainda é possível resgatar a criança boquiaberta com o sol da manhã, que desponta entre as montanhas como a cabeça-periscópio da tartaruga a sair vagarosamente do casco.
Não tenho dúvida de que foi com essa saudade que Nietzsche compôs o seguinte aforismo — a bem dizer, entoou a seguinte oração: “Maturidade do adulto: recuperar a seriedade da criança ao brincar”.
Morre antes do tempo — quer ir embora de si mesmo! — todo aquele que já não consegue encontrar qualquer fonte de acalento, todo aquele que já não consegue renovar a procura, como a criança sequiosa que aponta para cada coisa do mundo a que não sabe dar nome.
Ora — resmunga o adulto —, é justamente por não saber o nome e o fundo pegajoso da vida, que a criança quer logo desembrulhar o presente. Eu já não tenho esse refúgio — eu já não faço aniversário…
Será mesmo impossível ao adulto apátrida requisitar (e revisitar) a cidadania da infância?
O mesmo Alexander Soljenítsin, que divisou a consciência aguçada na infância como uma precoce e trágica expulsão do Éden, vaticinou que a criança que é forçada a olhar para a cara de caveira da vida tende a escrever estórias — tentaria a literatura escalar o muro do beco-sem-saída?
Em O fim do homem soviético, Svetlana Aleksiévitch conversou com pessoas que viveram na União Soviética e, não poucas vezes, a ela sobreviveram — pessoas inocentes torturadas e deportadas para campos de trabalhos forçados, nos mais gélidos rincões da Sibéria. 10 anos, 15 anos ou mesmo 20 anos sequestrados pela utopia. Tempo irredimível.
Tempo?!
Vidas irredimíveis!
Ainda assim, muitas daquelas pessoas estavam ali, diante dela, esboçando sorrisos improváveis e ainda oferecendo o café da ternura. Então, sem conseguir acreditar na hospitalidade que sobreviveu ao inferno e descobriu o diabo como mais um funcionário do gulag, Svetlana Alieksiévitch se volta para uma das mulheres com quem conversa e lhe pergunta:
— Como é que você ainda consegue sorrir? Ora, você esteve no inferno! Como é que você ainda consegue consegue ser gentil com a vida?
A senhora Nastácia abre um sorriso todo vincado pela geografia errática das rugas, como o traçado de rios que lutam para abraçar o mar, e se lembra de Neverland para responder:
— Eu recebi muito amor e carinho dos meus pais. Eles resgataram a minha vida, mesmo quando já não estavam ali para me salvar… Eles salvaram a minha vida, mesmo quando já não estavam ali para me resgatar.
Flávio Ricardo Vassoler, neto de Antônia Ângela, filho de Marineuza e Tadeu
Кишинев/Chișinău, Moldávia, 05:38 de 30 de julho de 2026
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Escritor, professor, youtuber, fundador da Universidade Virtual do Vassoler e apresentador do programa Filosofia do cotidiano (TV 247), é doutor em Letras pela USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA).



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