BRASIL VAI JOGAR? BEM-VINDOS DE VOLTA, MÃE E PAI!
Debrecen, Hungria, de 13 para 14 de junho de 2026: hoje, às 19h (horário de Brasília; já será meia-noite por aqui), a Seleção Brasileira fará sua estreia na Copa do Mundo contra o Marrocos.
Acompanho a Canarinho, com muita emoção, desde 1990 — este será, portanto, o décimo Mundial torcendo muito pelo Brasil.
Em 1990, chorei junto com a minha mãe Marineuzinha (que Deus a tenha), quando Maradona e Caniggia enterraram o Brasil já nas oitavas, o que me mostrou, em plena Itália dos meus bisavós Davide e Elisa, que nem todos os caminhos levam a Roma.
Em 1994, com Bebeto e Romário — isto é, Reimário —, quiçá a maior dupla de atacantes da história do futebol, levamos o Tetra, para delírio da minha família toda reunida lá na nossa antiga casa no operário Bairro dos Casa, em São Bernardo do Campo.
1998 foi o ano da maior emoção — verdadeiro teste para cardíacos! — que a Seleção impôs ao meu pai Tadeu (que Deus também o tenha), à minha mãe e a mim, já que, no jogo da semi contra a Holanda, quando vencemos na bacia das almas dos pênaltis, nós três choramos juntos de alegria e já começamos a gritar “é campeão!”.
2002, ano do Penta, para sempre vai despontar para mim como a conquista mais nostálgica, já que, poucas semanas depois de o Esquadrão Canarinho com Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Cafu e companhia jamais limitada derrotar a Alemanha por 2 a 0 na final (fora o baile!), meu pai Tadeu faleceu. Saudade eterna!
Desde 2006, então, torcer pela Seleção Brasileira significa torcer sem os meus pais — isto é, torcer pela Seleção Brasileira significa torcer como se meus pais estivessem gritando e vibrando junto comigo.
Que o futebol não é mais o mesmo com a radical indústria cultural e as bets; que nossa Seleção já não tem grandes craques; que o único jogador que poderia fazer verdadeira diferença, o Neymar, já não joga bola pra valer há tempos e ainda por cima não está 100% fisicamente, ora, é claro que eu sei de tudo isso e sofro com cada uma dessas coisas. Quem, como eu, teve o sonho de infância de ser jogador de futebol — em 1995, este corinthiano então pré-mirim fui revelação do campeonato de futsal na Associação dos Funcionários Públicos de São Bernardo do Campo —, jamais vai esquecer que marcar um gol é tornar o sentido da vida tangível com os pés!
Albert Camus queria sua Argélia natal independente dos colonizadores franceses. Mas, diante das bombas que estavam ceifando não apenas os carrascos da França, mas também os argelinos em praças e bondes, Camus fez uma colocação icônica: “Minha mãe toma tais bondes, e, entre a Argélia independente e minha mãe, eu fico com a minha mãe!”. (Assim falou o autor do romance “O estrangeiro”, em cujo primeiro parágrafo a personagem Meursault assim se exprime: “Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, eu não sei bem”.)
Pois bem: entre a FIFA que passa pano para o horror da Gestapo de Donald Trump nos aeroportos; entre o lamentável bolsonarismo de Neymar; entre o sequestro da camisa (do manto!) da Seleção Brasileira pela extrema-direita, eu, assim como Camus, fico com a minha mãe e com o meu pai, fico com o abraço enternecido que não lhes dou já há tantos anos, fico com a saudade e o sentido de que vamos nos rever um dia e de que, a cada gol do nosso Brasil, eles estarão em êxtase ao meu lado.
PERGUNTA | Que significa para mim o esgoto a que está sendo relegado o futebol atual — a bem dizer, o mundo atual —, em face dessas lembranças dos meus ancestrais que são o coração da minha vida?
RESPOSTA | Nada, absolutamente nada!
Que o formidável Maiakóvski, que depois acabaria alvejando o próprio coração, me diga ainda uma vez o que significam os gols do Brasil para mim e para os meus pais:
“Nos outros,
todo mundo sabe,
o coração fica no peito,
mas em mim a anatomia ficou louca,
sou todo coração”.
Hoje/amanhã, à meia-noite de Debrecen, na Hungria, quando o Brasil entrar em campo, eu vou poder tomar o cafezinho da minha mãe e a cachacinha do meu pai que à época eu não bebia — o que o abracadabra da saudade, essa mão que só afaga com luvas, não acaba fazendo, hem?
Vai, Brasil! Bem-vindos de volta, mãe e pai!
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Escritor, professor, youtuber, fundador da Universidade Virtual do Vassoler e apresentador do programa Filosofia do cotidiano (TV 247), é doutor em Letras pela USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA).


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