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MEU PAI PELÉ

Não tive a honra e o privilégio de ver Pelé, o rei do futebol, regendo jogos pelos gramados. Para um amante contumaz do futebol como eu, é o mesmo que ler o Velho Testamento e se perceber inelutavelmente apartado de uma época em que Deus transitava entre as pessoas.

Hoje eu sei que a escalação do Santos Futebol Clube do início dos anos 1960 — Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe — não é pura e simplesmente uma escalação, mas uma oração.

Em 1991, o operário Tadeu, meu pai/segundo marido da minha mãe Marineuza, me levou à biblioteca Monteiro Lobato, no centro de São Bernardo do Campo. Como o Brasil usurpara do meu pai a chance de estudar, ele queria incutir neste filho o amor pelos livros. Tão logo fizemos a minha ficha de usuário da biblioteca, meu pai encontrou uma fotobiografia de Pelé e começou a me contar suas histórias: o gol mágico aos 17 anos na final contra a Suécia, em 58; a dura contusão em 62, no Chile; o auge em 70, no México; o pênalti dos 1000 gols, no Maracanã.

Já então, me encantou/embasbacou sobremaneira um gol que Pelé não fez, num jogo contra o Uruguai válido pelas semifinais da Copa de 70.

Tostão dá um passe açucarado para Pelé, em diagonal, e o rei fica cara a cara com o arqueiro do Uruguai. Ao invés de interceptar a bola e driblar o goleiro como atacantes mortais o fazem, Pelé sequer toca na bola e a deixa passar em diagonal, pelo lado direito do arqueiro, enquanto corre pelo lado esquerdo do goleirão, aplicando-lhe uma meia-lua tão improvável quanto inefável. O gol está aberto para Pelé, mas o rei se vê algo desequilibrado depois do drible desconcertante — Pelé como que precisou driblar a si mesmo —, e o arremate, caprichoso, quase resvala a trave uruguaia e vê a bola sair sem a consumação daquele que teria sido um dos gols mais épicos da história do futebol.

Perguntei ao meu pai Tadeu, ali mesmo na biblioteca Monteiro Lobato, se era possível assoprar para a bola entrar. O pai afagou meu cocuruto com sua mão de luva de beisebol e sorriu com bonomia. (Uma montadora multinacional de veículos há muito instalada no Brasil chegou a fazer uma propaganda revisionista em que o quase-gol antológico de Pelé se concretizava. Ao vê-la, eu gritei como se Pelé estivesse vestindo a camisa do Corinthians!)

Com a morte do rei Pelé, meu pai Tadeu voltou a falecer.

Meu pai biológico João nasceu em Santos, em 1948, e viu Pelé não só jogar como treinar. Foi ele quem me contou que a preparação física de Pelé era tão descomunal, que o rei costumava pendurar sacos de areia na cintura para treinar mais impulsão em seus cabeceios. (Lembremo-nos do golaço de cabeça contra a Itália que Pelé marcou, na final da Copa de 70, abrindo a goleada vindoura por 4 a 1.)

Meu pai João sofreu por 11 longos anos (de 57 a 68), período durante o qual o nosso Corinthians só fazia ser nocauteado pelo Santos de Pelé. O rei chegou a dizer que caprichava ainda mais ao jogar contra o Timão e acabou recebendo a alcunha de “carrasco do Corinthians”.

Uma semana antes de meu pai João falecer, eu lhe perguntei, no hospital, como ele conseguira permanecer corinthiano tendo nascido em Santos e tendo visto Pelé reinar in loco. Mesmo bastante combalido pela doença que o vitimaria, meu pai conseguiu esboçar um sorriso e redarguiu: “Eu era como um árabe cristão na Palestina, meu filho. Por ser árabe, eu admirava Maomé, mas, ainda assim, seguia Jesus Cristo. Minha religião é o Corinthians; meu Deus, o Pelé”.

Com a morte do rei Pelé, meu pai João voltou a falecer.

Quando vejo o coração que Pelé suou na camisa do Brasil em pleno Maracanã — mais uma poesia escandida pelo rei —, ausculto, ainda uma vez, os corações do meu pai Tadeu e do meu pai João.

Budapeste, Hungria, dezembro de 2022, ainda sob a triste emoção da morte do rei Pelé.

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