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E SE NARCISO COMEÇAR A ACHAR FEIO TAMBÉM O QUE É ESPELHO?

Aristóteles sentenciou: o ser humano é um animal social. Tal conceito é tão tangível que sequer posso dizer que eu me chamo Ricardo. Antes de mais nada, meus pais assim me chamaram.

— Penso, logo existo. 

Por mais que eu esteja compondo este texto, a escrita da esquerda para a direita, o vocabulário, a gramática, a sintaxe e a necessidade dos vínculos lógicos também me foram legados, de modo que, aristotélica e sociologicamente, Descartes assim deveria ter sentenciado:

— Pensamos, logo existo. 

Sempre que desejamos; ao sonharmos; quando tememos, um espectro nos ronda, o espectro do outro, o fantasma da alteridade. 

Em síntese lapidar, eis o que sentenciou a filosofia Ubuntu, oriunda da região meridional do continente africano:

— Eu sou, porque nós somos.

Mas, ainda que assim o seja — isto é, ainda que assim o sejamos —, nada é mais difícil do que… conviver com o outro… 

O outro quer ser ouvido, mas, com o cotovelo dolorido, não quer ouvir. 

O outro não sabe elogiar, mas, diante de um flanco nosso, é pródigo em conselhos condescendentes e críticas mui construtivas.

Se não ganha mais, se não é mais cortejado, se não é mais lido, se não é mais viajado, o outro precisa descobrir alguma seara em que seja mais do que outrem, como se a mão estendida para a amizade pressupusesse, no mínimo, a paridade de armas. 

Ao realizar a anatomia de Narciso, o dr. Freud nos ensinou que o ser humano, ao amar, ama a si mesmo no outro — porque Narciso acha feio o que não é espelho, não é mesmo, Caetano? —, ou então ama, no outro, o que o eu não tem, o que lhe falta. 

— Nossa, as suas ideias são tão geniais, mas tão geniais… que se parecem com as minhas! 

— Nossa, a sua vida é a vida que eu sempre quis ter… Viva por mim! 

— Nossa, eu estou tão feliz por você, mas tão feliz, que é como se estivesse acontecendo comigo mesmo! 

Certa feita, o cristão Kierkegaard formulou a seguinte máxima sobre a amizade: 

— O amigo é o primeiro tu. 

Para o compassivo Kierkegaard, o amigo é o outro, com suas formas peculiares de ver o mundo, seus afetos próprios, seus valores — em suma, com suas diferenças, sua alteridade. 

Após ouvir a pregação de Kierkegaard, Pitágoras de Samos, já cansado das abstrações de seu famoso teorema, assim redarguiu: 

— O amigo é um segundo eu. 

Antes de decidirmos entre Kierkegaard e Pitágoras, perguntemos a nós mesmos, de modo que ninguém nos ouça: 

— Cuidamos amorosa e diligentemente de nossos filhos (se é que o fizemos). Num futuro cada vez mais próximo (e cada vez mais manco), nossos filhos cuidarão de nós ou nos exilarão em confortáveis asilos (é preciso amortizar a culpa) com visitas a fundo perdido? 

Após a vitória épica de Lula Tetra no dia 25 de outubro de 2026, começaram a circular pelas redes sociais vídeos absolutamente emocionantes de idosos, que, com mais de 80 ou mesmo 90 anos, foram votar na civilização contra a barbárie. 

Voltemos a perguntar a nós mesmos, de modo que ninguém nos ouça: 

— Afora esses momentos de sangria e desespero, quando é que tais idosos são retratados na TV ou nas redes com a devoção e a deferência que eles tanto merecem? Quando é que os vemos e ouvimos? Por que rebocamos tanto a cara e os lábios com botox, de modo a denegarmos que um dia seremos como tais idosos que ora ovacionamos? (Será que, subliminarmente, já pressentimos que a única harmonia possível é a harmonização facial?) 

Foi Sartre quem nos ensinou que o inferno são os outros? Ou foi a nossa descrença cabisbaixa que já não consegue nem chorar? 

Sem conseguirmos ser pessoas melhores — a bem dizer, já há muito considerando que a melhoria do coração humano não passa de uma prédica do único cristão, cujo destino, não à toa, foi morrer na cruz —, projetamos uma sociedade melhor, com a fórmula mágica da empatia e da solidariedade, que tão pouco exercemos no cotidiano de nossas relações fraturadas. 

Voltemos a perguntar a nós mesmos, de modo que ninguém nos ouça:

— Será mesmo que nos surpreendemos com os 60 milhões de votos que o fascista Flávio Bolsonaro recebeu? Tais sufrágios vieram de Marte ou do seio das mesmas famílias, que, mal sabendo dividir garfos, facas e colheres após a morte dos ancestrais, ainda assim proclamam que é possível partilhar o pão social com outrem a quem sequer conhecemos e de quem, a bem dizer, só fazemos sentir medo (quando não ódio)?

A vitória tudo perdoa, não é mesmo?

Não. 

Tem muito pó embaixo do tapete da vitória. 

Certa feita, perguntaram a Diógenes de Sínope o que ele procurava com uma lanterna em punho mesmo banhado pelo sol a pino do meio-dia. 

— Procuro um amigo. 

Após a resposta-só-lâmina de Diógenes, engoliram em seco sobretudo aqueles que antes o julgavam louco. 

Mas o que dizer dos pais que acariciam seus filhos com ternura, cuidado e abnegação? 

Após a enésima baforada de mais um de seus charutos — os mesmos charutos que o matariam —, o dr. Freud continua a dissecar Narciso com seu bisturi: 

— Vocês se referem aos mesmos pais que esperam que seus filhos façam o que eles não fizeram? Que redimam e cicatrizem a vida que os pais não viveram? 

Mas eis que o homem ridículo, personagem redentora de Dostoiévski, grita e suplica: “Não! Eu não posso aceitar que o mal seja o estado normal das pessoas”. 

Então, onde está o outro? E mais: por que não somos esse outro para outrem? 

Certa feita, Karl Kraus revelou que o diabo, na verdade, não passa de um coroinha.  

— O diabo… um coroinha?! 

— Ora, o diabo é um otimista, se acha que pode tornar os seres humanos ainda piores do que já são. 

Por discernir no diabo um coroinha, o apóstolo Maquiavel certa feita pregou que podemos insultar o cadáver ainda quente do pai no velório, mas, caso ousemos questionar as partes devidas a cada um na herança, aí, sim, os filhos se porão em polvorosa!

Sim, somos seres sociais, o outro é parte inequívoca de nós mesmos, mas isso não significa que o nó, por fazer parte de uma rede, não se sinta como a mosca capturada pela teia da aranha. 

Os alemães, por sinal, têm um dito cirúrgico a esse respeito:

— Mitgefangen, mitgehangen, isto é, presos juntos, juntos enforcados. 

Necessidade nem de longe significa vontade e, sobretudo, comunhão. 

Não é sintomático que, só depois do ataque terrorista de 11 de setembro, Nova Iorque tenha arregimentado um batalhão de voluntários para ajudar a resgatar os feridos e dar um enterro condigno aos mortos soterrados?

Não é sintomático que, só depois da catástrofe do 1.° turno das eleições de 2026, o campo democrático tenha arregimentado um batalhão de voluntários para lutar contra o fascismo e impedir que o Brasil assistisse à morte de seu futuro? 

Quer dizer, então, que apenas somos capazes de verdadeira união, quando nos sentimos fracos e desesperados? 

Quer dizer, então, que a paz só nos leva a orbitar ao redor do próprio umbigo, ao passo que a guerra é que gera a comunhão dos batalhões? (Nós nos alistamos no Exército do Lula, certo?)

Certa feita, em Moscou, um ex-capitão do Exército soviético, que lutara na guerra do Afeganistão, assim discorreu sobre a amizade: 

— Foi na guerra, e apenas na guerra, que eu fiz amigos de verdade! Amigos que te carregam ferido, amigos que repartem o pão antes mesmo de oferecê-lo. Agora, no cotidiano da paz, só vale o cada um por si… Amizade verdadeira, ora, eu só vi na guerra, eu só vi no batalhão!

(Vocês encontram o relato completo desse militar soviético no texto “Se queres paz, prepara-te para a guerra”, que faz parte do meu livro “Diário de um escritor na Rússia”.)

Comunhão na dor e na guerra; egoísmo e inveja na paz: ora, o que é que isso nos ensina sobre a condição humana? 

Certa feita, Hannah Arendt expressou um medo inusitado do socialismo. Não pelo fato de ele ser coletivista e comunitário demais, não pelo fato de o socialismo tolher a liberdade e a subjetividade, mas, segundo Arendt, pelo fato de, potencialmente, o socialismo levar ao radical individualismo. 

Socialismo individualista?! 

Hannah Arendt estava bebendo café ou conhaque? Tem certeza de que ela estava fumando cigarro? 

Sim: socialismo individualista. 

Para Hannah Arendt, mesmo que a esfera pública seja (de)formada pela necessidade, ela ainda assim faz com que as pessoas tenham que estabelecer trocas, faz com que as pessoas tenham que se aproximar umas das outras e coexistir. Mas, se o jugo da necessidade for suspenso, se as pessoas já não precisarem umas das outras, o que garantirá que a esfera pública não se estilhace por meio de encontros meramente casuais e fortuitos entre as pessoas, sem quaisquer características de compromisso e permanência? 

— Repita, por favor, esta última ideia de Hannah Arendt, Vassoler. 

— Pois não: “o que garantirá que a esfera pública não se estilhace por meio de encontros meramente casuais e fortuitos entre as pessoas, sem quaisquer características de compromisso e permanência?”. 

— Vassoler, acabo de chegar à conclusão de que Hannah Arendt anteviu o Tinder… 

É bem possível que, diante do medo de Hannah Arendt, revolucionários impetuosos sentenciem que a pensadora alemã padecia da “dor conhecida” a que se referiu, certa feita, Jacques Lacan. 

— Meu casamento é uma droga, já há muito não há amor, sequer há migalhas de respeito e compreensão… Mas… essa dor, bom, eu já a conheço, os buracos e percalços dessa estrada são meus velhos conhecidos… Agora, quem é que pode me dizer o que eu vou encontrar quando dobrar a esquina? É só nos contos de fada que tem pote de ouro no fim do arco-íris. Essa dor é certa, mas eu já a conheço. O que é que tem do lado de lá? Não sei… E isso dói e assusta de uma forma que dá medo, ainda mais medo… 

Antes, estávamos acostumados a pensar que, a cada quatro anos, vinha a Copa do Mundo. Agora, a cada quatro, vem a união dos angustiados, vem a solidariedade do desespero. 

O rapaz pula do prédio:

— 18.° andar, 15.° andar: até aqui vai tudo bem, até aqui vai tudo bem! 10.° andar, 7.° andar: até aqui vai tudo bem, até aqui vai tudo bem!

Ao fim e ao cabo, compreendemos, com fel na boca, um velho adágio romano:

— Se queres paz, prepara-te para a guerra. 

Ao fim e ao cabo, Nietzsche nos recomenda prudência para exilar o mal apenas e tão-somente na trincheira da extrema direita, nos 60 milhões de votos dos outros:

— Quem vive para derrotar o inimigo precisa do inimigo sempre vivo. 

Ao fim e ao cabo, Narciso nos recomenda prudência quando, pela manhã, olharmos para o espelho. E se Narciso começar a achar feio também o que é espelho? 

Flávio Ricardo Vassoler – Doutor em Letras pela USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA), é autor das obras O evangelho segundo talião (nVersos, 2013); Tiro de misericórdia (nVersos, 2014); Dostoiévski e a dialética: fetichismo da forma, utopia como conteúdo (Hedra, 2018); Diário de um escritor na Rússia (Hedra, 2019); e Metamorfoses, os anos de aprendizagem de Ricardo V. e seu pai (Nômade, fiel como os pássaros migratórios, 2021). 

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