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Quem foi que me ensinou a imaginar? Fragmento de Carta à mãe

Neuzinha, minha querida mãe,

Quem foi que me ensinou a imaginar? Quem foi que me ensinou a acreditar no itinerário de Pasárgada? [Ainda que, com aquelas chuvonas de fim de tarde e a falta de luz que sempre despencava depois delas, a gente precisasse de velas (velas trêmulas como as pernocas da Lara com medo do escuro) pra desbravar o corredor cheio de portas e sombras lá da casa de São Bernardo.] Quem foi que me ensinou que, se eu mergulhasse de olhos bem abertos na piscinona de 100 litros que o pai Nhanho montava na laje da churrasqueira (com aqueles oclinhos de plástico que cê tinha comprado pra gente fazer natação), eu ia conseguir descobrir o portal de Atlântida como Jacques Cousteau, o explorador dos sete mares (e, de quebra, eu talvez até desvendasse o mistério da carcaça do Titanic)? Você, mãezinha; você, minha velha.  Você  me  entregou  a  chave  da  cidade  do  imaginário    o  cordão umbilical da realidade ficcional.

1991, 3ª série (eu tinha acabado de fazer 10 anos). A rapaziada toda lá do Terra Mater gostava da Marcela – a Marcela tinha o queixinho delicado, olhos  grandes  e  redondos,   entre  verdes  e  castanhos,   encimados  por sobrancelhas bem fininhas, e ela quase sempre usava umas tiaras cravejadas de pedrinhas brilhantes. No recreio, todo mundo descia pro pátio, e foi numa dessas ocasiões que eu aproveitei pra dar uma fuçada no diário da Marcela pra tentar descobrir se, afinal, ela tava ou não tava gostando de mim. [Eu tava pra lá de desconfiado de que a Marcela tava gostando de mim por três motivos cruciais: (i) uma semana antes (se tanto), eu tinha comprado um pirulito Dip ‘n’ Lik pra ela – pra falar a verdade, o pirulito até que era meio sem  graça,  mas  o  barato  é  que  vinha  um  pozinho  bem  açucarado  pra embebê-lo, e daí, quando a gente chupava o doce, o pozinho começava a explodir no céu da boca que nem rojão. Quando eu levei o Dip ‘n’ Lik pra Marcela,  ela abriu um sorriso lindo    era a primeira vez que eu  via  as covinhas dela tão de perto , me mostrou a língua arroxeada (o Dip ‘n’ Lik era de framboesa) e ainda me perguntou se eu tava ouvindo o foguetório no céu da boca; (ii) mesmo sendo são-paulina – eu fiquei com ainda mais raiva do Raí, carrasco do Corinthians (apesar de irmão do Dr. Sócrates), quando o diário da Marcela me segredou que ela só era são-paulina por causa dele –, a Marcela vinha me consolar quando o Timão perdia, sendo que ela chegou até a me presentear, no dia do meu aniversário, com uma figurinha pra lá de rara de  Don  Diego  Maradona    justamente  a  figurinha  que  faltava  pra  eu completar o álbum da Copa de 90; (iii) num fim de tarde de muita chuva, eu entrevi a Marcela sentada no pátio da escola à espera da mãe dela. O cabelo dela, recém-cortado, tava à altura do queixinho. De repente, ela vira o rosto de lado e como que fica hipnotizada com um louva-deus que, meio cambaleante,  vai carregando uma  folha  amarelada.  Ah,  mas  eu  não tive dúvida: o Marco Felipe, meu amigão ali da escola, tava andando com uma Polaroid pra cima e pra baixo. Eis que eu vou lá, surrupio a Polaroid dele e, de  fininho,  vou  me  aproximando  da  Marcela    eu  chego  até  mesmo  a entrever o pescocinho dela todo eriçado pelo vento úmido de chuva. Quando a Marcela me percebe, zás!, eu capturo o soslaio dela com um clique da Polaroid como se estivesse caçando borboletas. A foto sai da máquina num instante, e daí a gente precisa chacoalhála pra que a imagem comece a despontar, como um fantasma que vai ganhando corpo. [Muitos anos depois, quando eu vi A fraternidade é vermelha e deparei, ao fim do filme (mais precisamente,  após  1 hora, 31 minutos  e 30  segundos),  com o close do diretor Krzysztof Kieślowski sobre o rosto belo e aflito de Irène Jacob, eu podia jurar que estava (re)vendo a minha Marcela os mesmos cabelos castanhos  e  molhados,  a  mesma  boquinha  entreaberta,  o  mesmo  lábio superior levemente saliente.] Ora, e não é que eu encontrei, entre as páginas multicoloridas  do  diário  da  Marcela,  a  foto  da  Polaroid  junto  com  a embalagem  roxa  do  Dip  ‘n’  Lik  que  eu  tinha  dado  pra  ela?  [Naquele momento, com o corpo trêmulo de alegria pelo amor correspondido (meu primeiro amor), eu senti o ímpeto do sol laranja que ousa se levantar por entre montanhas íngremes, escuras e ainda não desbravadas.]

Pois  é,  mãe:  quem  dera  essa  alegria  tivesse  durado  mais…  Logo apareceu ali na escola um aluno novo, o Walter. Eu não deparei com ele de pronto lembra aquele Corcel branco 78, aquela barca cheia de ferrugem que, aos trancos e barrancos, levou a gente pra Quintana naquelas férias de verão de 91? Então, deu problema no motor da caranga, mãe – a gente levou o carro lá pro Jaime consertar, e depois cê contou pra gente que o mecânico, teu conhecido de infância (e esperto como ele só), tinha tentado te paquerar (sem sucesso, coitado) uns 30 anos antes. Lembra disso? Então, o Jaime levou dois dias pra ressuscitar o motor, mãe, e daí, quando eu de fato fui pra escola, no terceiro dia de aula, a rapaziada isqueirinho aqueles frangotes que, quando sai briga, ficam botando pilha e gritando “te tirou grandão, iééé, iééé, iééé!”, “vixe, deixa barato, não, iééé, iééé, iééé!” – já tava girando a banca de apostas: quem é que é o mais forte da turma agora, o Ricardo ou o Walter?

Não demorou muito, mãe, pra eu sair na porrada com o Walter eu nunca entendi por que muita gente da rapaziada isqueirinho, quando a treta começava pra valer, entrava pra turma do deixa disso e separava a rinha de galo. (Será que tinha alguma sensação de culpa pré-mirim ali envolvida? Ou será que aqueles frangotes agitões, ao separarem a briga que eles mesmos tinham incitado, se sentiam valentões pra além da própria covardia? Vai saber, mãe, vai saber!) O fato é que o Walter, mais alto do que eu, era, no entanto, mais lento, e eu dava umas voadoras certeiras [eu ficava treinando na parede do quintal depois de ver, pela enésima vez, o Van Damme voar em O grande dragão branco (minha velha, ainda bem que você e a Nena corriam pra limpar as minhas patadas na parede branquinha que o pai tinha acabado de pintar – ai de mim se ele visse aquilo ali!)]. Então, mãe, o tonto aqui,  naquela  disputa  de  macho  alfa  pré-mirim,  consegui  manter  minha reputação de valentão – ademais, eu jogava muito mais bola do que o Walter e ia bem melhor na escola. Mas o problema, mãe, era o meu coração de Aquiles: a Marcela.

Uma a uma, as meninas da turma começaram a gostar do Walter, e o Marco  Felipe    tava  prevendo  que,  logo  menos,  a  bola  da  vez  seria  a Marcela. (Eu continuava a fuçar no diário dela nos recreios: a princípio, nenhuma anotação propriamente reveladora; mas, com o tempo, conforme o pêndulo da Juliana, da Fernanda, da Camila, da Claudinha, da Patrícia, da Júlia, da Tamara e companhia ilimitada pendia para o Walter, a Marcela talvez tenha pressentido que, para continuar a ser a desejada das gentes, ela precisaria de novos ares.) Talvez eu não quisesse acreditar, mãe,que eu não sabia como lidar com aquilo. Se o Walter me afrontasse em qualquer lugar, era porrada franca, era mano a mano, mas o amor da Marcela era como o vento: não dava pra fazer arapuca, não dava pra capturá-lo. Parecia que  eu,  o  suposto  conquistador,  aquele  que  tentava  manter  pra  mim  o coração da Marcela, tava, na verdade, entrando na tocaia. Pela primeira vez na vida, mãe, eu me dei conta (mesmo sem saber) de que o amor é como um cavalo bravio e que coisa diferente do amor de mãe, de vó, de pai e de irmã, mãe! O amor de vocês quase que não pedia nada de volta ou, se pedia, pedia tudo (é só a gente se lembrar do pai me dando bronca e ordem quando eu fazia arte). Mas ali, com a Marcela, eu tinha que ficar cortejando, o que tava dito e jurado ontem (aquela jura de amor eterno escrita com canetinha na palma da mão) se desmanchava amanhã como formigueiro na chuva, era tudo muito frágil, era tudo muito incerto, parecia o gás hélio que, numa festa de aniversário da Lara (em 88, mãe, lembra?), a gente usou pra encher as bexigas: quando o pai inalava o gás, a voz dele ficava fina, fina, fina [por que que cê gostava de repetir os adjetivos três vezes, mãe? Parecia que a coisa nunca tava dita de fato, parecia que sempre tava faltando alguma intensidade pra realidade (será por isso, mãe, que, quando eu fazendo a revisão  dos  meus  escritos,  eu  olho  pros  adjetivos  com  o  cuidado  do ourives?)]. Mas, ora, pouco depois de a gente dar aquele montão de risada com a voz fina, fina, fina do pai, a fantasia movida a gás hélio acabava. E era algo assim com o amor da Marcela: quando a gente tava mais feliz, eu queria fazer  uma  cerquinha  em  volta  daquele  momento,  como  se  fosse  uma barragem de castor prum rio, ou então um ninho de aconchego pro João de Barro. Mas o fato é que, fora de casa, mãe, o amor parecia não ter bote salva-vidas.

Veio  o acantonamento  no Rancho  Ranieri,    em São Lourenço da Serra, e eu consegui infiltrar o Marco Felipe como espião em relação a quaisquer incursões do Walter num raio de 10 metros da Marcela. Eu tinha certeza  de  que,  depois  de  ter  dado  pra  ela  um  louva-deus  verdinho de presente, a Marcela ia ficar comigo – o bichinho era tão pacato, mãe, mas tão pacato, que eu nem precisei enfiar um alfinete no lombo dele pra ele ficar obediente. Bom, e como eu tava tranquilo, logo eu comecei a ralhar com o Marco quando  ele me segredou  que,  enquanto  eu  tava  jogando bola  no campão, a Marcela tava andando de mão dada com o Walter. (Pra quem, até então, só tinha jogado futebol de salão, jogar bola num gramadão oficial pela primeira vez é o mesmo que esbugalhar os olhos pruma planície depois de sair duma caverna.)

– Como, Marco!? O quê?!

Como o Marco tinha esquecido a Polaroid em casa cadê as fotos, Marcão, cadê? , parecia (e/ou assim eu queria acreditar) que ele tava me afogando com convicções sem provas. [Eu cheguei a dizer que era pura paranoia do Marco dizer que a Marcela tinha dado um selinho no Walter na noite  do  último  dia:  afinal,  Marcão,  cadê  o  teu  binóculo  de  captação ultravioleta? Sem ele, como  é que tem tanta certeza de que viu  esse selinho à noite? (O pior cego, mãe, não é aquele que não quer ver; o pior cego, minha velha, é aquele que só quer ver.) Na volta pra São Bernardo, eu fiquei num ônibus da excursão e, pro meu suplício, a Marcela e o Walter ficaram no outro. Quando o Marco se deu conta de que não adiantava abrir meus olhos, mãe, ele, como bom amigo, começou a desviar minha atenção pra revista Supergame: Ricardo, olha só, velho, saiu a sequência inteira do Alex Kidd in Miracle World, tem todos os truques e sequências pra vencer os chefões, agora a gente termina essa bagaça! Mas, curiosamente e a gente parece estar repleto dessas passagens secretas , quando o Marco parou de me alertar, quando ele começou a tergiversar, eu comecei a acreditar que o cuzão do Walter de fato tava com a Marcela. E foi aí que, no meio de uma estrada  parecida  com  a  estrada  pra  Quintana,  mãe,  os  dois  ônibus  da excursão se emparelharam, e eu vi, lá da minha janela, a Marcela e o Walter, um ao lado do outro, bem apaixonados – a Marcela tava com a cabecinha no ombro do Walter, e ele ia fazendo cafuné nela.

Mãe do céu, que porrada foi aquela?! E pior, mãe: não dava pra eu revidar    era  a  decisão  da  Marcela,  mãe,  ela  tinha  escolhido,  eu  tinha perdido. O Marco, gente fina como ele só, fez que não viu e, além de fechar a cortina, ele como que inventou um pronunciamento coletivo pra desviar a atenção da galera pra dentro do nosso ônibus – o Marco sabia que, se alguém da  rapaziada  isqueirinho ameaçasse fazer  qualquer  piadinha  pra cima  de mim sobre a Marcela e o Walter, a cobra ia fumar.

O   fato   é   que,   depois   daquilo,   eu   fiquei   calado     totalmente ensimesmado. Não falava, não reagia – meus braços cruzados e minha boca torta pareciam as sentinelas da dor que tava me incendiando por dentro.

Não me despedi do Marco, mãe, nem olhei pra você no carro: em casa (eram umas 7 da noite), eu me tranquei no quarto, apaguei a luz, me joguei embaixo da coberta e tentei me esconder no sono pra ver se eu mudava as coisas. Passou aquela noite (eu não jantei), passou a manhã seguinte (café da manhã pra quê?), passou a tarde (de jeito nenhum eu vou pra escola, mãe!), e a minha reclusão já ia pra dois dias – a mãe batia na porta, a vó Nena batia na janela, a Lara falava que eu tava perdendo episódios novinhos em folha do Chaves e do Chapolim, mas nada me tirava da minha masmorra. Eu tinha picotado o álbum de figurinhas que a Marcela  tinha me ajudado a completar – e, depois, com todo o remorso do mundo, eu fui lá e colei parte por parte, tintim por tintim, de forma bem demorada, como se, com aquilo ali, eu fosse revendo e tocando o rostinho da Marcela.

Eu me lembro de que comecei a ficar fraco, mãe, porque, no começo, eu ainda mandava você, a vó Nena e a Lara ficarem quietas e me deixarem em paz, mas depois eu não tinha força nem pra isso, e daí eu vi que cê começou a ficar muito preocupada, mãe, cê chorava, cê pedia pelo amor de Deus que eu abrisse a porta, mas eu não queria nem saber, tava doendo demais – e vai lá saber por que que a gente se afeiçoa a esse tipo de dor, mãe, vai lá saber! Será que era isso, será que eu tava gostando de sofrer? Eu não sei, mas, quanto mais doía, mais eu me afundava, mais eu me lembrava da Marcela, mais eu ficava com raiva dela, mais a queria, mais a repelia, mais longe ela ficava, mais saudade eu sentia.

Quando meu cativeiro tava pra cruzar a fronteira do terceiro dia, o pai Nhanho  entrou  na  história.  No começo  ele trovejou  com aquela  voz  de gigante – meu Deus do céu, não tinha nem sinal daquela voz fina, fina, fina do gás hélio , e logo o pai tava fazendo a porta chacoalhar com umas porradas de responsa: Ri-car- lembra que ele me chamava assim quando tava bravo, mãe? –, abre essa porta já, chega de história, vamos, abre essa porta agora!

Eu não sei de onde eu tirei força – eu já tava bem fraco, mãe, o escuro do quarto tava girando ao meu redor , mas eu gritei que, se o pai Nhanho arrombasse a porta, eu ia bater com força a cabeça na parede – vixe, dava até pra imaginar a vó Nena fazendo o Pelo Sinal com o terço na mão, mãe!

Mas aí, mãe, começou a narrar minha vida. (Na verdade, isso começou bem antes, em 1982, mas logo, logo a gente chega lá.)

Eu não sei como, eu não sei de onde, mas o telefone tocou. Na primeira ligação, era o Marco Felipe. A mãe veio até a porta do quarto e falou, com a voz séria (cê deve ter engolido o choro com toda a tua força, mãe), que o Marco  tinha  uma  revelação  a  me  fazer  sobre  a  Marcela.  Eu  não  tava acreditando  muito  naquilo,   não,   mas,  quando  a  gente  luta  contra  a curiosidade, parece que a gente fica tentando esvaziar enchente com conta gotas. Devagarinho   eu  tava tão fraco que o cobertor tava  pesando no ombro depois de 2 dias sem comer e sem beber , eu fui até porta, girei a chave no trinco, e o pai me levou até a sala pra eu falar com o Marco (era aquele telefone vermelho, mãe, aquele de discar – aquela linha telefônica, à época, valia bastante, eu lembro que chegou a afiançar essa linha como garantia de que a gente ia pagar as prestações da casa).

– Fala, Marco…

O Marco não fez nem menção de gaguejar:

Ricardo, velho, você viu errado, eu vi errado, não era o Walter que tava do lado da Marcela no outro ônibus, não…

Ué, Marco, então quem era?! E aqueles cafunés lá, bicho!? Eu tavsonhando, é?!

O Marco fez um breve silêncio ao telefone (dava pra ouvir a respiração dele, a adrenalina tava começando a me irrigar) e, então, ele disse:

Era a irmã da Marcela, Ricardo, a Marina  sabe que elas se parecem, e o Walter queria oficializar o namoro pros pais da Marina na volta do acantonamento.

Mãe, até hoje eu acho que, quem não conhece a verdade do me engana que eu gosto, não conhece muito da vida – eu tava acreditando no Marco (eu queria acreditar no Marco), mas tinha algum fio desencapado ali. Ora, mãe, será que eu não era capaz de reconhecer o rosto da Marcela? Tá certo que a Marina, um ano e meio mais velha, era bem parecida com a Marcela, mas só a Marcela usava aquela malha verde quando tava com frio. Não, a história não tava colando, tinha caroço nesse angu eu já ia voltando pro quarto, mas o pai Nhanho, do tamanho do gigante Adamastor, se colocou no meu caminho pra Nena trazer pra mim uma pratada de sopa marrom com bastante carne de panela e nhame. (A Lara tentou me hipnotizar com um montão de Lollos e Chokitos, mas eu não queria comer nada, eu queria ficar  sozinho.)  Foi    que  o  telefone  tocou  pela  segunda  vez.  Aquela campainha  de  telefone,  que  antes  parecia  tão  longe  de  mim  como  as badaladas do sino da igrejinha de Quintana, continuou a ressoar dentro do meu peito quando cê atendeu a ligação e veio até a cozinha pra me dizer:

– Ricardinho, é a Marcela… Ela quer falar com você…

(Cê sentiu alguma vez uma corda vindo te resgatar do fundo escuro de um poço?)

– A Ma-Ma-Marcela…?

– É, Ricardinho, ela tá esperando pra falar com você – cê não vem falar com ela?

Dois segundos depois eu tava com o telefone na orelha. Respiro fundo:

A-aalô…?

– Oi, Ri, tudo bom?

– Marcela?!

– É… Tudo bem com você?

Que que eu digo pra ela? Que, sem contar que eu já tava há dois dias e duas noites sem comer, sem beber e sem dormir direito por causa dela, tava tudo ótimo, uma maravilha.

– Tudo bem, Má, tudo ótimo…

Eu não devia ter dito o que eu disse na sequência, mãe tava doendo pra caramba, doía ainda mais ouvir a voz dela sem poder -la , mas eu disse:

– Tô com saudade de você, Má…

Até hoje, mãe, eu acho que eu ouvi a Marcela engolindo em seco antes de dizer o que eu ia ouvir:

– Ri, eu quero te dizer uma coisa…

– O quê?! (De olhos esbugalhados.)

– Eu não tô namorando com o Walter, não… – Não…? Quer dizer: não?!

Não…

(O alívio gigante daquele momento me fez entender como é que, lá no desenho, o Pica-Pau conseguia levantar pedras do tamanho de um Golias e como é que o Chapolim Colorado conseguia levitar com um tapete voador.)

– Cê vai pra escola amanhã, Ri? Todo mundo quer te ver lá de novo… Ai,  mãe,  que  facada  que  eu  tomei:  que  me  importa  todo  mundo, Marcela? Só me importa você!

– E você, Má…? Cê quer me ver?

– Quero… Eu também quero.

Foi como se eu ouvisse o porteiro multicolorido do Castelo Tim Bum a pronunciar as palavras mágicas: clift, cloft, still, a porta se abriu!

Ela quer me ver, mãe, ela quer me ver, pai, ela quer me ver, vó, ela quer me ver, Lara a Marcela quer me ver! [Eu gritava e tomava sopa e bebia guaraná e partia o pão caseiro da (aquele pão com a casquinha bem crocante e o miolo macio) com a fome de 7 batalhões.] Como é que eu ia supor, naquele momento, que era você a narradora de toda aquela estória, mãe? (Se eu tava desconfiado de alguma coisa, mãe, te juro que escondi o baú da dúvida de mim mesmo como o pirata que enterra seu ouro no mais fundo da floresta.)

O Marco, como bom amigo, mentiu pra mim, mãe e foi que eu descobri que esse tipo de mentira, com a salvaguarda da amizade, é, a bem dizer, uma meia verdade – ou melhor, uma verdade e meia.

A Marcela, meu primeiro amor, não mentiu pra mim, mãe – ela, de fato, não tava namorando com o Walter… Ela tava ficando com ele. (Quer dizer, então, mãe, que, muito antes de ler os aforismos do Oscar Wilde, eu já tinha descoberto o que é a verdade das máscaras?)

Você,  minha velha, ocê não mentiu pra mim,  mãe  cavou uma terceira  margem pra  minha  tristeza  desaguar,  cê tinha  ligado pro Marco Felipe, cê tinha ligado pra Marcela, cê pediu pelo amor de Deus que eles te ajudassem, de alguma forma, a me tirar daquele quarto escuro, daí cê bolou toda a estória, cê inventou um canto de Circe pra me resgatar do bunker, cê cavou uma passagem secreta por sob a realidade, cê pôs o manto da ficção – aquela colcha de retalhos que a vó tinha costurado com tanto esmero – sobre os ombros da minha realidade, não me deixou sofrer, mãe, teu amor tão terno e tão fundo queria me blindar, não era pra eu me frustrar ora, mãe, não era pra eu viver, então? Era, sim, era (e muito), mas, no que estivesse ao teu alcance (e para além, muito além), ia fazer de tudo pra insuflar meu mundo com o abre-te, sésamo.

Quem foi que me ensinou a imaginar? Era uma vez você, mãe.

 

Flávio Ricardo Vassoler, escritor, professor, youtuber, fundador da Universidade Virtual do Vassoler e apresentador do programa Filosofia do cotidiano na TV 247, é doutor em Letras pela USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA), e autor das obras O evangelho segundo talião (nVersos, 2013), Tiro de misericórdia (nVersos, 2014), Dostoiévski e a dialética: fetichismo da forma, utopia como conteúdo (Hedra, 2018), Diário de um escritor na Rússia (Hedra, 2019) e Metamorfoses, anos de aprendizagem de Ricardo V. e seu pai (Nômade, fiel como os pássaros migratórios, 2021). 

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