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Gaia ciência?

I. Nietzsche, irmão de João Batista

Equivocam-se aqueles que atribuem a engenheiros e arquitetos de Chicago, nos Estados Unidos, a autoria dos colossais arranha-céus, em meio à década de 1880, como forma de otimizar o espaço urbano após o incêndio que devastou a cidade, em 1871. 

Em viagem a Chicago, foi Friedrich Nietzsche, já como um filósofo de meia-idade, quem assim batizou os arranha-céus, legítimos tataranetos da Torre de Babel, como uma síntese moderna da colonização do céu e do exílio de Deus. 

II. A bad trip da consciência de classe

Quando souberam que, no Brasil, a palavra “criado-mudo” é mais usada do que o termo “cômoda”, Karl Marx e Étienne de La Boétie só fizeram cofiar a barba desgrenhada de profeta. 

Empregando a foice e o martelo, Marx logrou abrir as gavetas lacradas do criado-mudo e numa delas encontrou um relatório detalhado da CIA sobre a luta de classes à brasileira, com diretrizes para as Forças Armadas de nosso país. 

Depois de retirar a mordaça do criado-mudo, La Boétie depositou sobre a cômoda um exemplar de seu ensaio Discurso da servidão voluntária, secundado pelo novo livro de Jessé Souza, O pobre de direita: a vingança dos bastardos. No entanto, quando um Marx imberbe e careca de saber revelou a La Boétie que (i) motoristas e entregadores por aplicativo se consideram empreendedores; e que (ii) a extrema-direita, com ampla representação no Congresso e entre vastos setores das camadas populares, está prestes a colocar em votação a pauta da jornada de trabalho 7×0, La Boétie precisou usar a mordaça do criado-mudo para enxugar as lágrimas. Vendo o amigo em prantos, o velho Marx, ainda pró-ativo, assim procurou consolá-lo: 

— Não esquenta, não, camarada Étienne, nós vamos empreender e vamos vencer! Eu acabei de bolar um nome bem top para a nossa nova marca de lança-perfume… Sabe qual? 

— Qual, Karl? 

Consciência de classe. 

III. Quando a curiosidade não mata o gato, porque ele tem sete vidas

Assim falou o professor Ludwig Wittgenstein: “Os limites da minha língua são os limites do meu mundo”. 

Aluno de Wittgenstein, o jovem Chico Xavier levanta a mão e pede a palavra. 

— Pois não, Chico, pode perguntar. 

— Professor, se os limites da minha língua são os limites do meu mundo, quem é o sujeito da frase “Acabei de morrer”? 

Wittgenstein só faz coçar o cocuruto e o queixo imberbe — não necessariamente nesta ordem. 

Súbito, o jovem Georg Hegel, outro aluno de Wittgenstein e melhor amigo de Chico, também levanta a mão. 

— Pois não, Georg, a palavra é sua. 

— Professor, uma cerca delimita não apenas o que está dentro da minha fazenda,  o que é meu, o que eu conheço, mas, necessariamente, o que está fora da fazenda e além da cerca, o que não é meu (ou ainda não é meu), porque eu não o conheço, não é mesmo? Sendo assim, você concordaria comigo se eu dissesse que os limites da minha língua são, dialeticamente, os limites dentro e além do meu mundo? 

Wittgenstein só faz coçar o queixo imberbe e o cocuruto — não necessariamente nesta ordem. 

Súbito, o jovem Sigmund Freud, outro aluno de Wittgenstein e desafeto de Chico Xavier e Georg Hegel, também levanta a mão. 

— Pois não, Sigmund, pode perguntar, a palavra é sua. 

— Professor, se me permite, eu gostaria de fazer um adendo à sua máxima, em cujo útero já consigo discernir alguns laivos edipianos. A meu ver, seria bem mais acurado se disséssemos que os limites da minha língua materna são os limites do meu mundo, porque estamos sempre voltando para casa. Que tal? 

Wittgenstein só faz coçar, simultaneamente, o cocuruto imberbe e o queixo (ou seria o contrário?).

IV. A pedra perpétua de Sísifo 

Há quem diga que a Esperança é a última que morre. 

Fico imaginando a Esperança, prisioneira no cativeiro do Ressentimento, a ser conduzida para o patíbulo pela Mágoa. 

E quem seriam as testemunhas oculares da execução da Esperança? 

O Cinismo, que acusa o Sadismo de cinismo, e o Sadismo, que acusa o Cinismo de sadismo. 

Como o Ódio e o Masoquismo só fazem brigar para ver quem será o carrasco da Esperança, a Frieza ordena que a Indiferença arbitre a contenda. 

Assim falou a Indiferença: 

— Decidam no par ou ímpar, já!

Antes que o Masoquismo execute a Esperança a golpes de machado, a Frieza decide conceder à Esperança um último desejo, conforme a sugestão que acabara de lhe ser sussurrada pelo Cinismo (ou teria sido pelo Sadismo?). 

Assim suplicou a Esperança: 

— Permitam que meu filho Sísifo se livre de sua pedra perpétua… 

Consta que o Cinismo (ou teria sido o Sadismo?) teria redarguido à Esperança que é preciso imaginar Sísifo feliz, mas o Sadismo (ou teria sido o Cinismo?) não sabe dizer se a Esperança pôde ouvi-lo, pois ela talvez já não estivesse com a cabeça no lugar. 

V. Quem canta seus males espanta? 

Dizem que em algum lugar da Rússia rural, à época da servidão, os servos e servas eram coagidos a cantar, a plenos pulmões, enquanto trabalhavam nas terras do senhor feudal sob a batuta do capataz, de modo a impedir que eles comessem, aqui e ali, os frutos da colheita que eles haviam plantado com as próprias mãos. 

VI. Sociopatologia da vida cotidiana

Deveríamos compreender não como gentileza, mas como rematados sintomas, que a réplica para uma boa ação seja “Muito obrigado” e que a tréplica seja “Não foi nada”. 

Será por isso que, como os exemplos de vida e morte de Sócrates, Cristo e Gandhi nos ensinam, o preço da bondade, em nosso mundo, é o martírio? 

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