Felicidade clandestina
Café Nova Província, em Cracóvia, 17 e 18 de janeiro de 2026, sob os auspícios da poeta (e antiga frequentadora) Wisława Szymborska
Aceno para um táxi à saída da rodoviária do Tietê, em São Paulo.
— Vai pra onde, patrão?
— Butantã. Fica quanto?
— O taxímetro é que vai dizer…
Já a caminho, o papo com o taxista — um senhor de barba cerrada e grisalha, que usava, inusitadamente, um relógio em cada pulso — flutua da então recente greve dos caminheiros (estávamos em junho de 2018) ao último jogo do Coringão, mas eu podia notar, aqui e ali, pelo retrovisor, olhares fugidios e pesarosos, secundados por suspiros lentos e compassados, como quem manca penosamente ao andar, como quem sente um frio maior do que o cobertor.
Súbito — e como quem sai de uma trincheira —, o taxista pára de jogar conversa fora e sentencia:
— Patrão, eu preciso te dizer uma coisa…
Perplexo, rompo o acordo tácito da conversa pra boi dormir e fico em silêncio. O motorista não se faz de rogado e cofia a barba com sofreguidão antes de insistir:
— Patrão, eu preciso confessar uma coisa aqui, algo que tá me sufocando há muito tempo… E, bom, como a gente não vai se ver nunca mais, eu preciso que você me ouça, eu preciso de um conselho…
Agora eu entendo por que, para além do cinismo sádico, os carrascos oferecem uma última tragada de cigarro ao condenado já no patíbulo.
— Como o senhor se chama?
O taxista não titubeia:
— Não precisa me chamar de senhor, não. O Senhor tá lá no céu, mas eu bem que queria que Ele estivesse aqui na terra, sentado aí no teu lugar… Meu nome é Válter.
Ele estende a mão direita aberta em palma rumo ao banco de trás, e eu consigo discernir nódoas marrons e veias intumescidas no dorso da mão que me cumprimenta.
— Eu me chamo Ricardo, muito prazer em conhecê-lo.
— Pois eu não sei o que fazer, Ricardo…
— Mas o que foi que aconteceu, Válter?
O motorista saca do porta-luvas um papel algo amassado e o repassa para mim.
“Carcinoma de 9 cm de comprimento alojado no pulmão esquerdo e com ramificações metamórficas e metastáticas”.
— Meu Deus do céu…
— Antes Ele estivesse aqui na terra, Ricardo, sentado bem no teu lugar…
Ali, naquele momento, eu não queria ser cúmplice do silêncio de Deus, mas a paralisia, pálida e de olhos esbugalhados, simplesmente não consegue dizer nada.
Súbito, me ocorre uma saída de emergência:
— Válter, você já consultou outros médicos? Você já refez a biópsia?
Ele aperta o volante com força, como se estivesse me esganando, e dispara:
— Ricardo, chega de baboseiras e babaquices! Um moribundo não tem mais tempo pra mentiras fantasiadas de boas intenções. Já não me resta muito tempo, rapaz, eu vou morrer!
— Todos nós vamos, Válter, todos nós…
— É mesmo, jovem? Todos nós vamos morrer, né? Pois muito bem: eu vou pro vinagre daqui a duas semanas — quando muito, no mês que vem. E você? Bom, pela tua cara, você deve ter uns 35, certo? Então, daqui a uns 40 anos, ou mais, vai chegar tua vez. Pois muito bem: como nós todos vamos morrer, que tal você trocar comigo? Quer morrer agora, quer morrer no meu lugar?
Ato contínuo, eu olho para o farol vermelho que se aproxima e já não sei se o carro vai parar… (E se a minha porta tiver sido trancada?)
O motorista parece notar, pelo retrovisor, alguns rastros do meu pânico, e talvez a morte que já funga no cangote torne audíveis as palavras que o medo não ousa dizer.
— Fica sossegado, Ricardo: você não vai junto comigo, não, mas eu preciso da tua ajuda…
— Mas o que é que eu posso fazer por você, Válter?
— Me ouça e… me diga o que fazer…
— Será que eu consigo, Válter?
— Eu não tenho outra saída, jovem, eu não tenho outra saída…
— Mas o que foi, Válter?
— Ricardo, há 25 anos — eu repito: há 25 anos! —, eu sou bígamo.
— O quê? Como assim?
— É isso mesmo que você ouviu: há 25 anos, eu tenho duas esposas, eu sou pai de filhos de duas famílias…
— Nossa Senhora!
— Não encontrei Deus, Ricardo, e não encontrei Maria, mas a minha segunda esposa se chama Maria Madalena.
— E ela sabe da primeira?
— Sim, a Madalena sabe sobre a Fátima e sobre os meus filhos da primeira família — só ela sabe, Ricardo, e mais ninguém!
— E sua segunda esposa esconde isso dos próprios filhos? Como é possível, Válter?
— Vai entender, jovem, vai entender… Quando a Madalena soube da Fátima e dos meus outros filhos, ela já tava grávida da minha segunda menina — eu tenho dois filhos de lá, Pedro e Paulo, e duas filhas de cá, Rute e Raquel. A Madalena ficou furiosa, ela me ameaçou de tudo que é jeito, partiu copo, quebrou prato, ela queria me botar porta afora, mas eu ajoelhei, eu implorei, eu supliquei pra ela me dar uma chance, um tempo pra eu arranjar tudo, um tempo pra eu poder confessar… E talvez você já tenha idade, jovem, pra saber que as melhores transas vêm depois de um arranca-rabo, e na cama a gente sempre se entendeu bem, eita!, ali sempre saiu faísca, então, a muito custo, com muita choradeira, eu consegui dobrar a Madalena, eu consegui tirar o pescoço da forca, eu empurrei o abismo pra frente — amanhã, depois de amanhã… E você acha que o me engana que eu gosto não funciona? Você pensa que não? A gente tava ali, a gente se enganchava bem como homem e mulher, eu sou trabalhador, ela também é, não tinha queixa de nada, as filhas iam crescendo com saúde, até que certo dia, quando já não tinha mais jeito de não ver que eu tava empurrando a coisa toda com a barriga, a Madalena vira pra mim, com fúria de bruxa, e me diz bem na cara, à queima-roupa: “Ficando numa situação assim, Válter, eu viro tua cúmplice, eu também me torno culpada, porque eu sei, eu sei de tudo… Mas quem fez essa merda toda, quem começou essa safadeza brava foi você, Válter, você, homem — e você sozinho! Então, seu Válter, não foi você que cagou? Pois muito bem: quem caga tem que limpar! Um dia, você — e você sozinho! — vai ter que olhar pra cara das nossas filhas, as filhas que te amam e que confiam no pai, você vai ter que olhar pra cara dos teus filhos com aquela de lá, seu Válter, e você vai ter que dizer pra todos eles, que te amam e que confiam no pai, que você é um safado sem-vergonha, que você é um mentiroso picareta, que você enganou todo mundo! Você — e você sozinho! — vai ter que fazer isso, Válter, porque eu não vou carregar essa cruz com você, não, você vai estar lá sozinho — e ai de você, seu safado, seu pilantra, seu canalha, se você disser pras nossas filhas que eu sabia de tudo, se você disser pros meus pais que eu sabia de tudo, se você disser pra alguém, Válter, que eu sabia de tudo, tá me ouvindo? Se você disser pra quem quer que seja que eu sabia de tudo isso, Válter, que eu aceitei, que eu tô aceitando, você vai ver, seu Válter, eu acabo com você! E de você, seu safado, de você, seu pilantra, eu só quero uma coisa: que você volte, eu só quero que você volte sempre, que você não falte pras nossas filhas e pra mim, que você não falte pra nós… Se for assim, Válter, se você não fraquejar, se você sempre voltar, eu aceito te dividir… Mas, se você sumir, se nossas filhas ficarem sem você, Válter, se eu ficar sem você, eu vou atrás de você até no inferno, eu acho você na puta que te pariu, eu te encontro até na casa do caralho, e lá, onde quer que você esteja, eu acabo com você, seu safado, seu pilantra, seu canalha, eu acabo com você!”.
— Meu Deus, Válter…
— E você acredita que, depois dessa, a Madalena e eu tivemos a melhor transa do nosso casamento? Ela me mordia e me unhava, parecia que ia arrancar bife do meu beiço, parecia que queria passar arame farpado com as pernas trançadas nas minhas costas, eu parecia uma caça dela, sei lá, mas o fato é que, ainda montada em mim, ela voltou a gritar que um dia, seu pilantra, a confissão vai ser só sua, Válter, a cruz vai ser só sua, safado!
— Nossa, Válter, isso tudo é muito forte, isso tudo é muito…
— Louco?
— Sim, claro, é muito louco! Mas como é que tudo isso foi acontecer? Como é que você acabou se casando com duas mulheres? Como é que você acabou formando duas famílias?
— Ora, Ricardo… Eu aposto que, aos 35, você já sabe que a vida é dura, ninguém mais precisa te dizer isso, né?
— Ué, Válter, será mesmo que você tá querendo me dizer que é vida dura ter duas mulheres, é isso?
— É duro amar duas mulheres, Ricardo, é duro amar duas pessoas assim tão diferentes, gostar delas de formas tão diferentes, sentir que cada uma delas, da sua maneira, me traz uma coisa muito diferente, que cada uma delas me completa (ou me deixa menos vazio…) de formas muito diferentes. E olha o que eu descobri, Ricardo: um Válter diferente, um Válter com outra cara e outra alma, um Válter pra cada uma delas — ora, como é que eu ia saber disso sem ser bígamo, hem? Como é que eu ia sentir isso sem ser bígamo?
— Pra você, Válter, a coisa toda parece boa e reveladora, a aventura parece instigante… Mas e pra elas, Válter, e pras tuas esposas? E pra Fátima? E pra Madalena? E pros teus filhos? E pras tuas filhas? Como é que fica tudo isso?
— E você acha que eu já não rolo essa pedra há muito tempo, Ricardo? Todos os dias, jovem, há 25 anos!
— E como é que você deixou a coisa toda chegar até esse ponto, Válter?
— É, Ricardo… É sempre mais fácil falar do que fazer, e a ferida dos outros, não sendo nossa, dói sempre menos, bem menos, se é que dói, né?
— Mas como é que tudo isso foi acontecer, Válter?
— Bom… A Fátima, minha primeira mulher, é um doce de pessoa: gentil, delicada, submissa… É a mãe dela cuspida e escarrada, só que eu acabei não seguindo o caminho do meu sogro, que sempre acabava arranjando, aqui e ali, uma amante eventual… A Fátima cuidava do Pedro e do Paulo, a Fátima cuidava da casa, a Fátima cuidava de mim, a Fátima costurava pra fora, e eu, deixando de lado os fins de semana, tava sempre por lá, tava sempre com eles, eu sempre comparecia… Só que a Fátima, que sempre me consolava, praticamente nunca me procurou… Ela teve uma criação muito católica, é a mãe cuspida e escarrada, vai sempre pra igreja e reza novena, nem precisou fazer força pra virar beata, a Fátima benze a água com a missa da Canção Nova, e então, Ricardo, na Fátima, eu tinha um porto seguro, uma grande mãe pros meus filhos, uma mulher muito digna e direita, uma mulher bondosa e trabalhadora, mas ali não tinha amor, ali não tinha paixão… Tinha ordem e limpeza, mas não tinha nenhuma bagunça da boa… Tinha segurança, mas não tinha nenhuma turbulência… E foi aí que, num dia tal, como hoje é domingo, Ricardo, e amanhã é segunda, foi aí que a Madalena acabou aparecendo aí no banco de trás, como passageira… Se a Fátima é educada e gentil, a Madalena é bocuda e ríspida; se a Fátima é acolhedora e solícita, a Madalena é pidona e teimosa, quer muito pra ela, quer porque quer… A Fátima me obedece, já a Madalena, se eu deixar, se eu ficar de bobeira, a Madalena manda em mim, a Madalena monta em mim de espora e tudo! Com a Fátima eu tenho paz, com a Madalena eu vou pra guerra… Tem vezes que a gente tá no mesmo exército, tem que vezes que ela me mata, e assim eu me sinto vivo, e assim eu fui vivendo…
— Nossa, Válter, que loucura! E por mais pirada e impossível que seja essa pergunta, eu quero saber de você o seguinte: você nunca chegou a pensar não só em contar pras duas famílias que você tem duas famílias, mas em tentar unir, de repente, as duas famílias, pra ficar todo mundo num bolo só?
— Pra ver se todo mundo toparia morar embaixo do mesmo teto?
— Sei que isso é uma loucura, Válter, claro, mas você já chegou a sentir algo assim?
— Se eu já senti, Ricardo? Pois esse é meu sonho, rapaz… Sonho, que, agora, com essa goiaba cheia de vermes no meu pulmão, virou um baita dum pesadelo, o maior de todos! As duas famílias juntas, Ricardo? Ora, não só isso jamais aconteceria — eu fico pensando se a Madalena jantaria a Fátima com farofa ou pimenta… —, como agora eu tenho que encarar que meus dois pássaros e meus dois ninhos vão voar, meu Deus! E eu vou desaparecer! E, quando eu me for, quando todo mundo ficar sabendo, vai virar um pandemônio! Eu virei um rastilho de pólvora, Ricardo, uma bomba-relógio, e, quando eu explodir, vai começar uma guerra, meu Deus! E logo comigo, Ricardo! Logo eu, jovem, que amo meus filhos e minhas filhas, que sempre amei, cada uma de um jeito, as minhas duas mulheres! Agora vai tudo desmoronar, agora eu vou morrer, jovem, e eles vão acabar descobrindo tudo isso sem mim, eles vão descobrir tudo isso com o meu cadáver ainda quente, eles vão cuspir no meu caixão, eles vão amaldiçoar a minha cova e o dia em que me conheceram, eles vão me amaldiçoar como pai, elas vão me amaldiçoar como marido, eles vão pisar na minha memória, eles vão querer me esquecer, eles não vão me deixar em paz, mas eles jamais vão ficar em paz, só vai ter guerra, eu vou ser o estopim da guerra, o pino da granada… Meu Deus, o que foi que eu fiz, o que é que eu fui fazer, meu Deus, me ajuda!
É raro, muito raro, confessar as verdades mais fundas para quem quer que seja. (Nós mesmos nos escondemos delas.) Mas, quando esse raio irrompe em céu azul, quando um senhor moribundo tem a barba grisalha inundada de lágrimas doloridas e adiadas — para sempre adiadas, porque a gente sempre morre amanhã, nunca hoje —, a compaixão aperta o peito com tanta força, mas com tanta força, que a alma só consegue escapar desaguando como lágrima.
— Me ajuda, Ricardo, me ajuda, rapaz…
Soluçando, ele deixa escapar:
— Me ajuda, meu filho… pelo amor de Deus!
O que é que se diz para uma pessoa, quando a palavra (qualquer palavra!) pode se tornar irrevogável?
O que é que se diz para um condenado que não quer que os caminhos e descaminhos de toda a sua vida — seus muitos erros cheios de acertos, seu amor repleto de culpa e partilha — sejam enforcados junto com ele?
Ao tentar me colocar no lugar de Válter — única condição para uma palavra-ponte de verdadeira compaixão —, a imaginação, incendiária, começou a me incinerar… (Quando sentimos algum alívio por não sermos nós a queimar, a culpa desmascara o egoísmo nu e cru como o que ele de fato é: uma vergonha, um acinte!)
— Ricardo, o que é que eu faço? Pelo amor de Deus, eu não quero morrer assim, o que é que eu faço, rapaz?
— Chegou a hora, Válter…
— Não, Ricardo, eu ainda estou aqui…
— Chegou a hora, Válter, de enfiar o dedo na goela e botar tudo pra fora, chegou a hora de libertar essa mentira verdadeira do cativeiro… Em terreno neutro, Válter — nem na sua casa com a Fátima, o Pedro e o Paulo, nem na casa da Madalena com você, a Rute e a Raquel —, em algum lugar onde você já possa ter se escondido, em algum lugar onde você ter sofrido (e muito!), você precisa reunir todo mundo e confessar…
— Tudo?
— Absolutamente tudo.
— Mas, meu Deus, vai explodir uma guerra terrível, eu vou ficar no meio do fogo cruzado, pode até ter pancadaria da grossa, vai voar tudo que é palavrão, eles vão querer me matar, mas o câncer já vai me matar, então eles vão querer curar o câncer pra eu sofrer vivo, pra eu queimar vivo, morrer é pouco, seu marido de merda, seu pai de bosta, seu farsante, seu tratante, seu canalha que diz que ama e que só sustenta a gente pra escapulir! Eu não vou evitar a guerra, Ricardo — se eu confessar tudo, absolutamente tudo, eu é que vou declarar a guerra, rapaz! Então, meu filho, por que é que eu deveria fazer isso? Morto não sofre, morto não ouve, morto não vê, morto não volta…
— Você não acredita em Deus, Válter?
— Mas e Deus, Ricardo… Deus acredita em mim?
— Um dia, suas esposas e seus filhos talvez acreditem…
— Mas por que você acha que eu devo confessar tudo? E se, sei lá, eles jamais descobrirem? E se a polícia e a Justiça não avisarem ninguém? (A gente sempre quer se enganar, né?) Mas e se ninguém ficar sabendo de nada? Do fundo do coração, eu amei, com partes diferentes de mim, as minhas duas mulheres, as minhas duas famílias! Eu trabalhei de sol a sol, eu vi meus filhos crescerem, eu vi meus filhos na escola, eu vi a formatura dos meus filhos… Se com essa bigamia toda eu tentei tampar buracos dessa peneira que é a vida, será que eu não mereço ficar quieto e me esconder com o pó embaixo do tapete?
— Válter…
— Que foi, Ricardo?
— Você teria dito tudo isso pra mim, se não estivesse lutando justamente contra essa vontade de ficar quieto?
— Não…
— Então, Válter, se eu fosse você — eu não sou, eu sei, e, por que mais que eu tente imaginar, eu não vou conseguir me sentir como você se sente, eu não vou conseguir carregar tua cruz —, se eu fosse você, Válter, eu reuniria todo mundo — a Fátima e a Madalena, o Pedro e o Paulo, a Rute e a Raquel — e tentaria dizer, com as minhas próprias palavras, com a minha presença e com as minhas lágrimas, soluçando de medo e de culpa, que eu fiz isso, que eu fiz tudo isso, que me dói muito ter feito tudo isso, que eu me envergonho, que eu me culpo, mas que eles me perdoem, me perdoem pela mentira de tantos anos, me perdoem pela mentira de toda uma vida, mas me perdoem, sobretudo, porque, mentindo, eu fui mais feliz, eu amei mais, eu alcancei, em mim, coisas que eu sequer imaginava que existissem… Eu espero que eles te perdoem, Válter, pela tua felicidade clandestina… Se não fosse assim, a Madalena não seria mãe, a Rute e a Raquel não existiriam, o Pedro e o Paulo não teriam irmãs, e você, Válter, você não teria se conhecido…
— Mas isso vai resolver, Ricardo? Não vai ter guerra? Me diga!
— Não vai resolver, Válter, e, sim, vai ter guerra, vai ter muita guerra…
— Eles não vão conseguir me perdoar?
— Talvez muito depois da tua morte, Válter… Ou talvez nunca…
— Então, meu Deus, por que confessar tudo isso? Por que não sepultar essa verdade toda comigo?
— Porque, Válter, se vier de você, se sair da tua confissão, todos eles vão poder ver o rosto bem humano da mentira — algo como a verdade das máscaras. Você não mentiu o tempo todo, Válter. Ora, você trabalhou, você esteve presente, você sustentou, você orientou, você brigou, você viu crescer, você esteve ali, de corpo e alma, com os teus dias e com as tuas sombras mesmo à noite… Quando todos eles não conseguirem te perdoar — enquanto todos eles não conseguirem te perdoar (e se é que um dia vão conseguir fazer isso…) —, tuas esposas e teus filhos não vão ter apenas a tua mentira de 25 anos num só bloco, mas também as tuas muitas e pequenas verdades de cada dia, como o pão amanhecido e duro do convívio. E todos eles também, quem sabe?, vão poder ver que, sem fazerem o que você fez, eles também já sentiram vontade de fugir dessa vida e de fundar uma outra, diferente e proibida, mas acabaram não fazendo — por que não quiseram ou por que não puderam? Então, depois de muito tempo, depois de muita raiva, depois de jogar lama nos momentos mais felizes com você, depois de te malhar como Judas, talvez eles comecem a te resgatar, talvez eles tentem te resgatar, quando, talvez, eles conhecerem mais a vida, quando, talvez, eles conhecerem mais a si mesmos…
— E você acha mesmo que, então, eles vão me perdoar?
— Talvez sim, talvez nunca… Me diga, Válter: você consegue se perdoar?
Ele arregala os olhos e engole em seco, como se a minha pergunta fosse uma miragem.
— Me diga, Válter: você consegue se perdoar?
— Por mim, sim… Por eles, não…
— Aí está, Válter.
— O quê?
— Você, Válter.
— Eu?
— Sim, você.
— Mas eu sou um só… Eu não sou dois…
— Ora, Válter, confesse isso pra Fátima e pra Madalena, pro Pedro e pra Rute, pro Paulo e pra Raquel…
O táxi estaciona em frente ao meu prédio.
Eu precisava descer. Mas como partir?
Válter precisava partir. Mas como descer?
Ficamos em silêncio.
Pouco tempo, muito tempo?
Não sei dizer. (Não quero dizer.)
Rodoviárias, estações de trem e aeroportos são locais de passagem, isto é, são não-lugares. Ninguém permanece ali.
Mas e se o Válter da Fátima, do Pedro e do Paulo e o Válter da Madalena, da Rute e da Raquel só puderem conversar um com o outro na terra de ninguém que fica entre duas fronteiras guarnecidas com arame farpado? E se o Válter só puder conversar consigo mesmo em cima do muro de Berlim?
Poderia o táxi ser um refúgio?
Poderia o táxi ser uma prisão?
Quando eu rasgo a membrana do silêncio e saco a carteira para pagar a corrida, Válter já me estendera a mesma mão cansada e aberta em palma para me dizer que não pagasse e para me dizer adeus.
— Muito obrigado, Ricardo, muito obrigado…
— Boa sorte, Válter.
— Você deseja boa sorte prum moribundo, jovem?
Já com a perna direita fora do carro, eu respondo:
— Você sabe que não vai morrer de todo, Válter… Você sabe que muito de você vai sobreviver a você mesmo… Então, amigo, boa sorte também pra eles…
Flávio Ricardo Vassoler, escritor, professor, youtuber, fundador da Universidade Virtual do Vassoler e apresentador do programa Filosofia do cotidiano na TV 247, é doutor em Letras pela USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA), e autor das obras O evangelho segundo talião (nVersos, 2013), Tiro de misericórdia (nVersos, 2014), Dostoiévski e a dialética: fetichismo da forma, utopia como conteúdo (Hedra, 2018), Diário de um escritor na Rússia (Hedra, 2019) e Metamorfoses, anos de aprendizagem de Ricardo V. e seu pai (Nômade, fiel como os pássaros migratórios, 2021).
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Escritor, professor, youtuber, fundador da Universidade Virtual do Vassoler e apresentador do programa Filosofia do cotidiano (TV 247), é doutor em Letras pela USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA).



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