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Como eu me tornei um nômade, fiel como os pássaros migratórios?

Última foto da família Vassoler Wosniak (quase) toda reunida (faltaram minha vó Antônia Ângela, a Nena, e meu pai biológico João Olavo) no meu aniversário de 20 anos, no dia 11 de novembro de 2001, que foi comemorado em nossa casa em São Bernardo do Campo: da esquerda para direita, o corinthianíssimo Tadeu, meu pai de criação; minha irmã Larissa; este nômade, fiel como os pássaros migratórios; e minha mãe Marineuzinha.

COMO EU ME TORNEI UM NÔMADE, FIEL COMO OS PÁSSAROS MIGRATÓRIOS?, por Flávio Ricardo Vassoler (texto escrito em junho de 2022; às vésperas de mais uma diáspora das Viagens de Vassoler, é bom relembrá-lo)

Eu nasci no dia 11 de novembro de 1981, mas a maioria das línguas que conheço é mais precisa do que o português para exprimir o fato de que eu provenho dos meus ancestrais. 

I was born on November 11, 1981, em inglês.

Je suis né le 11 novembre 1981, em francês.

Ich wurde am 11.11.1981 geboren, em alemão.

Sono nato l’11 novembre 1981, em italiano, a língua dos meus ancestrais maternos. 

Eu nasci, isto é, eu fui nascido. 

No dia 29 de julho de 1877, nasceu, na comuna de Salgareda, situada na província de Treviso, ao norte da Itália, o terceiro filho de Antônio Vazzoler e Cesira Sartorello, meu bisavô Davide, precedido por Domenico, o primogênito, e Ângelo, e sucedido por Regina, Luigi e Giuseppe. Dadas a alta taxa de mortalidade infantil à época e a duríssima condição econômica dos meus trisavós camponeses, é possível que Antônio e Cesira tenham tido mais filhos que não lograram sorrir e, sobretudo, chorar neste mundo. (Antigamente, obstetras costumavam dar um tapinha no bumbum do nenê assim que ele saía do ventre da mãe. Supostamente voltado para fortalecer os pulmões do rebento, o choro primevo já prenunciava, na verdade, nosso vale de lágrimas: “Bem-vindo ao deserto do real”.)

Salgareda fica a pouco mais de 20 quilômetros de Vazzola, a comuna onde deve ter surgido a família Vazzoler. Na língua alemã, que era o idioma oficial do império austro-húngaro, ao qual pertencia boa parte da região norte da Itália, o sufixo “er” pode designar, entre outras acepções, proveniência. Assim, Berliner é alguém que nasceu em Berlim, e Vazzoler indica a fundação da família na comuna de Vazzola. Com o nomadismo dos camponeses pobres, que, via de regra, trabalhavam para os poucos e endinheirados proprietários de terras, meus trisavós Antônio e Cesira devem ter deambulado até a vizinha Salgareda, onde nasceu meu bisavô Davide. 

A pouco menos de 250 quilômetros ao norte de Salgareda fica a fronteira da Áustria. A pouco mais de 100 quilômetros, em direção suavemente nordeste, chega-se à Eslovênia. Se Antônio, Cesira e os filhos quisessem contornar o mar Adriático – ou mesmo atravessá-lo -, aportariam na Croácia em menos de 200 quilômetros. 

Consigo discernir, então, a minha ponte original com os eslavos antes mesmo da minha ligação com a Polônia, a partir do meu pai Tadeu, filhos de poloneses e segundo marido da minha mãe, e com a Rússia, a partir do meu pai espiritual Fiódor Dostoiévski, por meio dos iugoslavos, isto é, os eslavos do sul, dentre os quais os vizinhos eslovenos e croatas. 

Dadas as muitas guerras no século XIX, a região ora caía nas mãos de um mandatário (e de sua língua), ora de outro. Se tivesse podido estudar, meu bisavô Davide teria se tornado poliglota ao sabor das conquistas militares a ditarem os currículos escolares. (Se é que, pela dinâmica da vida viva para além das gramáticas escolares, o contato plurinacional não fez dele um poliglota ágrafo.)

Pela instabilidade militar e, sobretudo, pela aridez econômica, meus trisavós Antônio e Cesira decidiram emigrar para o Brasil, cujas classes dominantes, histórica e estruturalmente excludentes e preconceituosas, dado o crime da escravidão por elas perpetrado, não queriam contratar ex-escravos como trabalhadores assalariados nas lavouras. Como odienta política eugenista dos donos do Brasil, foram propagandeadas vagas de trabalho nas fazendas para imigrantes europeus pobres, e, em meio à enorme onda de italianos aportando no país no período já anterior ou pouco posterior ao fim do regime de trabalho escravo no Brasil, que se deu em meados de 1888, Antônio, Cesira e os seis filhos, entre os quais o pequeno Davide, então com 11 anos (eu nasci num dia 11/11), chegaram ao porto de Santos, cidade onde nasceu meu pai João Olavo, a bordo do vapor Carlo R, no dia 18 de março de 1889, ano em que, com um golpe de Estado (quando olhamos pelo retrovisor histórico, podemos dizer: mais um golpe de Estado…), os militares viriam a fundar, meses depois, a república brasileira. 

Como legítimos peões em busca de trabalhos sazonais, meus ancestrais rodaram pelas fazendas de café do interior do estado de São Paulo. 

No dia 23 de novembro de 1901 (eu nasci num mês novembro), o jovem camponês Davide Vazzoler, de 23 anos, provavelmente usando seu único traje mais aprumadinho para dar uma passeada, se casou com minha bisavó Elisa Girella, de 17 anos, italiana de Isola della Scala, comuna vizinha a Verona, terra de Romeu e Julieta. A certidão de casamento, lavrada no município de São Manuel, sentencia que ambos eram “catholicos romanos” (sic). 

31 anos depois, no dia 18 de outubro de 1932, em Piratininga, falecia Davide Vazzoler, aos meros 56 anos, “sem deixar bens a inventariar”, segundo assevera (e lamenta) o atestado de óbito. Mas a vida árdua da lavoura não foi tão breve para não ter momentos de suma alegria: na mesma Piratininga, no dia 13 de outubro de 1921, nascia o meu avô Ricardo Vassoler, cujo registro aportuguesado do sobrenome, sem a doppia zeta (o duplo z), como em Vazzoler, já decanta as metamorfoses nômades da nossa família. 

O vô Ricardo, de quem eu herdei o segundo nome (que fique registrado: meu nome preferido), era nômade por excelência: começou trabalhando, desde criança, como camponês terceiro ou meeiro, como o pai e a mãe pobres e explorados – ao fim da colheita, era preciso entregar 1/3 ou mesmo metade do suor do próprio trabalho para o dono das terras -, mas logo passou a deambular como caixeiro-viajante (laivos de Gregor Samsa) e motorista de caminhão de bombeiro (minha mãe adorava quando o pai singrava as ruas ressoando a buzina/sirene do caminhão como quem toca o berrante para guiar a boiada). E eis que, no caminho do nômade de cabelo escovinha e bigode bem aprumado, apareceu a formosa Antônia Ângela, minha avó Nena, que era neta, por parte de seu pai Berto, meu bisavô, de italianos oriundos da comuna litorânea de Caorle, distante apenas 36 quilômetros de Salgareda. Foi preciso, assim, o batismo do oceano Atlântico para que o Brasil casasse o que a Itália não unira. 

No dia 2 de setembro de 1944, na cidade de Marília, o vô Ricardo, prestes a completar 23 anos, se casou com a vó Nena, 3 anos mais jovem, filha do meu já mencionado bisavô Berto e da minha bisavó Isabel, descendente de espanhóis. 

Pouco menos de 30 anos depois, no dia 11 de junho de 1974, em Dracena, falecia Ricardo Vassoler, aos meros 52 anos, “sem deixar bens a inventariar”, segundo assevera (e lamenta) o atestado de óbito. (Nota bene: o filho viveu menos do que o pai.) Mas a vida árdua da lavoura e do nomadismo parcamente remunerado não foi tão breve para não ter momentos de suma alegria: na mesma Marília do casório, no dia 17 de março de 1946, nascia Marineuza Vassoler,  minha mãe. 

Irrequieta como o pai e trabalhadora como ambos os progenitores, a Neuzinha tinha um sonho: estudar. 

Minha vó Nena, dona de casa e costureira de mão cheia, pelejava para conseguir escrever – isto é, garatujar – a palavra “liquidificador” no caderninho em que anotava as datas de início e término das telenovelas a que assistia. Com o machismo típico e lamentável de sua geração, meu vô Ricardo, apenas funcionalmente alfabetizado, achava que, se uma moça já soubesse cozinhar e costurar, o casamento – isto é, a solvência sob a batuta masculina – viria como decorrência. Minha mãe, deveras rebelde para a época, lhe redarguia com um sonoro e corajoso “não!”. “Eu quero estudar, pai, eu vou estudar!”. 

Dos 10 aos 18 anos, de segunda a sábado, minha mãe acordava às 4 horas da madrugada para ir trabalhar no cafezal com o meu avô. (A vó Nena ficava em casa para cozinhar para dentro e costurar para fora.) Quem já foi tostado pelo sol inclemente do interior de São Paulo sabe que, às 10 horas da manhã, quando a mãe e o vô comiam a marmita de boia-fria preparada com esmero pela vó Nena, eles estavam pingando até a tampa de suor e cansaço. 

Aos 18 anos, cruzada a fronteira da maioridade, minha mãe desafiou o meu avô: “Pai, se você e a mãe não forem comigo pra cidade, onde eu vou achar um emprego melhor do que esse aqui da roça, que não dá futuro pra ninguém, eu vou embora daqui sozinha, porque aqui eu não fico mais!”. 

Para milhões de brasileiros e brasileiras, como minha irmã Larissa e eu, êxodo rural não é um conceito geográfico-sociológico, mas uma ferida ancestral supurada pela desigualdade social e regional do Brasil. 

Entre idas à cidade grande e retornos ao interior do estado, meu vô Ricardo faleceu, mas minha mãe, mesmo que de forma errante, conseguiu dar sequência aos estudos. 

Tínhamos parentes em São Bernardo do Campo, a letra B do Grande ABC operário complementado pelo A de Santo André e o C de São Caetano do Sul, onde uma série de montadoras de veículos estrangeiras se estabeleceu a partir de meados da década de 1950, com o governo do presidente Juscelino Kubistchek, cuja ascendência materna, de origem tcheca e cigana, era nômade como a da nossa família. À época, as oportunidades de emprego na região eram fartas entre as montadoras e seus muitos ramos industriais subsidiários. Foi assim que a dona Nena, que logo passou a trabalhar como costureira, e a Marineuzinha, a princípio vendedora e, depois, digitadora, se estabeleceram por lá. 

Para milhões de brasileiros e brasileiras, como minha irmã Larissa e eu, a formação do proletariado em nosso país não é um conceito histórico-sociológico, mas uma ferida ancestral supurada pela desigualdade social e regional do Brasil. 

Quando olho para a foice e o martelo, vejo meu berço, isto é, minha manjedoura. 

Em meados da década de 1970, a Marineuzinha conseguiu concluir, com mais de 30 anos, o Ensino Médio em um curso técnico de Administração no colégio Anchieta, que ficava na avenida Vergueiro, em São Bernardo. Quando o supervisor do setor de digitação da General Electric (GE) ficou sabendo que minha mãe pretendia dar sequência aos estudos cursando Letras na Fundação Santo André, ele coçou o cocuruto: “Marineuza, não seria mais lógico continuar a estudar Administração?”. Além de gostar de ler romances (e eis que o filho se tornaria escritor…), minha mãe achava que falar e escrever bem eram coisas muito bonitas e elegantes. (Quando o direito à educação é usurpado dos mais pobres, a vontade de superar o abismo e a opressão de classe pela expressão condigna emoldura o próprio imaginário.) 

No fim da década de 1970, o médico João Olavo começou a trabalhar na GE. 

Como minha mãe, meu pai é um filho da diáspora. 

Meu pai João Olavo nasceu no dia 25 de outubro de 1948, descendente de judeus sefaraditas tornados cristãos novos pelo medo do odiento antissemitismo próprio à Inquisição Ibérica. Expulsos da Espanha pela rainha Isabel e de Portugal pelo rei Dom Manuel, em fins do século XV, os sefaraditas tiveram vários destinos. Não se sabe ao certo o itinerário que levou parte da família Canto da Espanha e de Portugal para o Brasil. Há quem diga que, como o filósofo Baruch Spinoza, parte da família Canto rumou para a Holanda, o que teria gerado o tronco Kant, ou então para a Inglaterra, dando origem ao ramo Kent, antes de abandonarem a Europa em direção à América do Sul. O certo é que, na família do meu pai, há médicos desde o tataravô. (Se é verdade que não nascemos, pois somos nascidos, a coerção patriarcal, por sua vez, atribui o nome e a profissão a cada geração subsequente, como o novo que deve se ajoelhar diante da tradição por séculos e séculos, amém.) 
 

Ambos filhos da diáspora, o médico João Olavo, para quem o estudo e o trabalho eram as alavancas da vida, e a digitadora Marineuza, que sempre precisou trabalhar para sobreviver e sempre sonhou em estudar, geraram o menino Flávio Ricardo, que, nascido em 11 de novembro de 1981, há muitas gerações carrego comigo o espírito e o imaginário nômades/diaspóricos. 

Nasci em Ribeirão Pires, mas não tenho memórias da cidade e da casa (uma chácara) onde meu pai morava, pois minha mãe se separou dele quando eu tinha apenas 1 ano. 

A verdadeira cidade natal dos meus afetos e do meu imaginário é a operária São Bernardo do Campo, onde, dois anos após o meu nascimento, minha mãe conheceu o metalúrgico Tadeu, outro filho da diáspora e irmão da também digitadora Terezinha, com quem minha mãe trabalhara na GE e com quem voltaria a trabalhar na Pró-SBC, uma empresa de processamento de dados que prestava serviços para a prefeitura de São Bernardo. 

Com origem camponesa desde o sobrenome Wosniak, que pode querer dizer “condutor de carroça” (em polonês, Woźniak, com a mudança do ź para o s feita pelos escriturários brasileiros não versados nas línguas da diáspora), Tadeu (em polonês, Tadeusz) nasceu no dia 17 de agosto de 1946, sendo o segundo entre oito filhos dos lavradores Władysław e Anastazja, que emigraram da cidade de Tarnow, na região sudeste da Polônia, para o município de Joaquim Távora, ao norte do Paraná, pouco depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). 

Com a diferença geográfica do noroeste do estado de São Paulo para o norte do estado do Paraná, a história de emigração do meu pai Tadeu é muito parecida com a trajetória da minha mãe. Ele também trabalhou como vendedor antes de ser empregado numa grande montadora de veículos em São Bernardo, por indicação sumamente solidária do marido de sua irmã Madalena, meu tio Ricardo Moretti, outro filho da diáspora italiana. 

Terezinha falara muito bem para Marineuzinha de seu irmão Tadeu, que, como minha mãe, havia se divorciado há não muito tempo. 
 

Do primeiro casamento do meu pai Tadeu, nascera o menino Danilo no dia 29 de maio de 1978, a quem eu sempre considerei, para além da biologia, meu irmão de coração. 

No finzinho de 1983, quando os operários Tadeu e Marineuza se casaram, estava prenunciada a vinda de mais uma filha da diáspora, a ítalo-polaca Larissa, minha irmã biológica e de coração, que nasceu em São Bernardo do Campo, no dia 2 de maio de 1984.  

Na casa geminada típica de logradouros operários, no bairro dos Casa, em São Bernardo, passamos a morar minha avó Antônia, minha mãe Marineuza, meu pai Tadeu, eu e minha irmã Larissa. Desde sempre, o Danilo, palmeirense, nos visitava para jogarmos bola e vídeo game, além de ouvirmos jogos do Corinthians e do Palmeiras pela rádio Bandeirantes, com locuções do saudoso Fiori Gigliotti: “Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo, torcida brasileira!”. 

Não abraço e não beijo minha avó Antônia Ângela, que fazia bifes à milanesa e bolinhos de chuva como ninguém, desde o dia 27 de outubro de 1996, um domingo. 

Não abraço o meu pai Tadeu e não comemoro com ele um gol do Coringão desde o dia 29 de julho de 2002, uma segunda-feira.
 

Não abraço e não beijo minha mãe Marineuza, originalmente palmeirense como meu vô Ricardo e depois convertida ao corinthianismo apostólico romano por este filho, desde 28 de abril de 2012, um sábado. 

Não abraço meu pai João Olavo e não converso com ele sobre história, política e literatura nas línguas estrangeiras que ele queria que eu aprendesse desde 19 de abril de 2014, um sábado.

Em fevereiro de 2020, meu amigo Paulo, psiquiatra e espiritualista como o meu pai João Olavo, me convidou para participar de uma cerimônia de ayahuasca que ele coordenaria. Para tanto, o Paulo, como rematado junguiano, pediu que cada participante fizesse a jornada etimológica de seu nome e sobrenome. 

Canto, sobrenome paterno, me levou aos 4 cantos do mundo, que pretendo singrar com as Viagens de Vassoler, e ao canto da voz, um de meus instrumentos de trabalho como professor e palestrante. 

Vassoler, sobrenome materno, me levou a vessel, a nau nômade; a Vassili, o espectro russófilo de Dostoiévski, meu pai espiritual; e, quando aterrissou no Vazzoler do meu bisavô Davide, do meu avô Ricardo e da minha mãe, eu me peguei fazendo a seguinte pergunta: por que cargas d’água eu ainda não corri atrás da minha cidadania italiana? 

Coincidentemente – ou “co-incidentemente”, para quem tem espiritualidade -, minha vida passou a percorrer, a partir de então, a diáspora dos meus ancestrais de forma reversa. (Estamos sempre voltando para casa, não é mesmo, dr. Sigmund Freud?)

Há 1 ano e meio, moro em Braga, ao norte de Portugal, país situado na Península Ibérica, onde há séculos viveram os ancestrais sefaraditas do meu pai João Olavo. 

No último dia 27 de maio de 2022, minha irmã Larissa e eu recebemos, com muita alegria a reverberar as várias camadas diaspóricas que nos constituem, a notícia de que nos tornamos, respectivamente, cidadã e cidadão da República Italiana. Minha irmã, a partir de agora, faz dois aniversários em maio, nos dias 2 e 27, e recebe o signo de gêmeos como irmão de seu touro original. Este escorpiano, por minha vez, recebo o signo de gêmeos e me lembro de que meu pai João Olavo tinha um irmão gêmeo, meu tio Eduardo Victor, médico como o irmão, o pai, o avô, o bisavô, o trisavô e o tataravô. 

Quando ouço falar que a nacionalidade pressupõe uma língua e uma pátria delimitadas por fronteiras com arame farpado, eu me lembro de que sou filho da diáspora plurinacional e plurilinguística. (Depois do falecimento do meu pai João Olavo, encontrei na biblioteca dele os livros “Inglês por imagens”, “Francês por imagens” e “Alemão por imagens”, com os quais, desde que eu era pequeno, ele queria que eu me tornasse poliglota, já que, “nas famílias judaicas, o menino se torna homem com 12 anos, após o bar-mitzvá”, conforme sua verve sefaradita sempre frisava.) 

Quais seriam, então, a minha nação e a minha língua? 
 

A Itália e o italiano dos meus bisavós maternos?

A Espanha e o espanhol, Portugal e o português, a Holanda e o holandês, a Inglaterra e o inglês, além da língua ladina dos meus ancestrais sefaraditas paternos? 

A Polônia e o polonês dos meus avós paternos? 

Eis, então, o Brasil e o português brasileiro como resultantes vetoriais desse sincretismo nômade de nações e idiomas. 

Quando ouço falar que a família pressupõe rígidas relações de parentesco, eu me lembro de que não tenho memórias sem o meu pai Tadeu, segundo marido da minha mãe, que me criou desde 1 aninho e a quem eu jamais tratei senão como pai. Assim, ao invés de ter pai e padrasto (até engasgo ao pronunciar tal palavra, tamanha a distância que ela tem da minha experiência afetiva), eu tive 2 pais, sendo o pai de criação, com quem eu sempre vivi e convivi, ainda mais próximo de mim do que meu pai biológico. 

Qual seria, então, a minha família? 

Meu irmão Danilo também desafia e expande a dimensão biológica de família. 

Dizer que a Larissa é minha irmã por parte de mãe ou meia-irmã é um acinte em face de alguém sem cuja presença e amor, desde o princípio, eu não tenho memórias.

 Nunca fui à casa da minha vó Antônia, a dona Nena, já que ela sempre morou conosco e sempre cuidou de nós, também como nossa mãe, enquanto a Marineuzinha trabalhava fora de casa.  

Não pude conhecer meu vô Ricardo, meu bisavô Davide e minha bisavó Elisa, mas meu novo aniversário italiano é a voz deles em mim. 

Eis, então, a família como laços de parentesco e, sobretudo, como laços de afeto. A família eletiva para além da família efetiva. 

Qual seria, então, a minha cidade? 

Vazzola, Salgareda e Isola della Scala dos meus ancestrais italianos? 

Lisboa, Madri, Amsterdã e Londres dos meus ancestrais sefaraditas?

Tarnow dos meus ancestrais poloneses?

São Manuel, Piratininga, Duartina, Santa Luzia, Dracena e Marília dos ancestrais que desembocam na minha mãe? 

Santos e Ribeirão Pires dos ancestrais que desembocam no meu pai João Olavo?

Joaquim Távora dos ancestrais que desembocam no meu pai Tadeu?

São Paulo, onde eu morei durante 16 anos? 

Moscou, onde morei durante um ano para fazer parte do meu mestrado sobre Dostoiévski junto à Universidade Russa da Amizade dos Povos? 

Chicago, onde eu morei durante 2 anos para fazer meu estágio de doutorado e minha pesquisa de pós-doutorado ainda uma vez (e sempre) sobre Dostoiévski junto à Northwestern University? 

Braga, cidade onde moro há 1 ano e meio? 

As cidades, que, em face do meu nomadismo, ainda estão por vir? 

Eis, então, que São Bernardo do Campo desponta como a síntese da imigração e da saudade ancestrais, o ventre da minha memória. 

Eu vivo como um nômade, fiel como os pássaros migratórios, porque assim eu nasci, isto é, porque assim eu fui nascido. 

Eu digo, secundando o poeta e dramaturgo romano Terêncio, que “eu sou humano, e, portanto, nada do que é humano me é estranho”, porque assim eu nasci, isto é, assim eu fui nascido. 

Assim eu falei para o meu pai João Olavo: “Não vou ser médico”. 

Ruptura: o pássaro migratório abandona o ninho. 

Dois dias antes de falecer, meu pai João Olavo me revelou, no leito do hospital: “Gosto da medicina e a estudei com afinco, mas não queria ser médico. Eu queria ter sido psicanalista e queria ter feito estudos acadêmicos na área”. Além de ter me tornado poliglota, como meu pai era e como queria que eu fosse, hoje eu faço formação em psicanálise e meu trabalho como professor universitário pressupõe a trajetória acadêmica nômade que eu percorri, ao singrar as duas fronteiras da antiga Guerra Fria. 

Continuidade: o pássaro migratório retorna ao ninho. 

Meu pai Tadeu, homem prático e exímio em todas as tarefas relacionadas ao esmero com a estrutura da casa – como pedreiro, pintor, eletricista e marceneiro -, poderia ter feito cursos técnicos na área, se os mandatários do Brasil não tivessem cometido crime social contra ele e sua classe pauperizada. Muito bom em matemática, ele também poderia ter se tornado um diligente engenheiro se tivesse vivido em uma sociedade de oportunidades. 

Minha mãe Marineuza sonhava em estudar. Ela chegou a começar o curso de Letras, mas acabou abandonando a faculdade ao ficar grávida deste escritor. (Como sustentar o filho e pagar a faculdade com o salário de digitadora?) Certo dia, ao ver uma reportagem na televisão sobre a Universidade de São Paulo, a proletária Marineuza sentenciou: “Meus filhos ainda vão estudar aí!”. Quando, em 2002, a Larissa e eu passamos, respectivamente, nos cursos de Educação Física e Direito da USP, os filhos redimiram a criança sem infância na mãe que precisara trabalhar no cafezal. 

Quando, naquele mesmo ano, eu larguei o curso de Direito para cursar Ciências Sociais, minha mãe ficou exasperada. “Que trabalho você vai ter com esse curso, meu filho?”. 

Ruptura: o pássaro migratório expande o ninho da sobrevivência para tentar palmilhar vivências próprias.

Quando, não muitos anos depois, eu decidi fazer carreira acadêmica estudando literatura russa, minha mãe já estava acostumada a rezar pelo futuro do filho. “Deus passa na frente, minha Nossa Senhora, Deus passa na frente!”. 

Ué, mãe, mas você não começou a fazer Letras, minha velha? 

Continuidade: o pássaro migratório se lembra do ninho a cada dia, com gratidão e saudade. 

Será por isso, dr. Sigmund Freud, que nós estamos sempre voltando para casa? 

Somos o que nossos ancestrais fizeram e nos ensinaram. 

Somos o que nossos ancestrais fizeram e não puderam nos ensinar.

Somos o que nossos ancestrais não fizeram e nos ensinaram. 

Somos o que nossos ancestrais não fizeram e não puderam nos ensinar.

Eu sou, afinal, a rebeldia e a gratidão que cortam o cordão umbilical: fiel como os pássaros migratórios, eu sou um nômade. 

No inverno, os pássaros migratórios voltam ao ninho em busca de acalento. (É sempre noite, do contrário não precisaríamos de luz; é sempre inverno, do contrário não precisaríamos de calor.) 

No verão, os pássaros migratórios mimetizam os nômades, que singraram as estepes primevas e infindas, como quem entra num quarto escuro à procura de uma luz distinta. 

Com a nova tocha, o nômade ilumina o inusitado e, sem conseguir discernir o que está diante de si e já sentindo frio sem o acalento do ninho original, ele exclama: “Pai, mãe, me ensinem a ver!”. 

O nômade então começa a descobrir, fiel como os pássaros migratórios, que só vira nômade aquele que palmilha o caminho para se tornar pai de si mesmo. 
 
 
Flávio Ricardo Vassoler
Doutor em Letras pela USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA), é fundador da Universidade Virtual do Vassoler (5 anos: 2020-2025) e apresentador do programa Filosofia do cotidiano na TV 247. 

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2 comments

comments user
Carlos

Esplêndido texto!

    comments user
    Prof. Flávio Ricardo Vassoler

    Olá, Calros. Fico muito feliz que tenha gostado do texto. Obrigado por acompanhar meu trabalho e sega sempre bem-vindo por aqui. Um abraço.

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